segunda-feira, 19 de maio de 2014

Alto Preço



"Já chega, pode parar! Você não tem ritmo, é desafinado... você é péssimo, ou melhor, tem que melhorar muito para ser péssimo! Meu conselho é que esqueça sobre cantar, filho!"

– com essas palavras o diretor de seleção de elenco dispensou Jimmy Desjardins.
A meia dúzia de pessoas, também da equipe de seleção, espalhadas pelas cadeiras do teatro, onde acontecia a audição dos candidatos para o elenco de um musical, riram de Jimmy, fazendo-o se lembrar do traumático evento no colegial, quando se apresentou cantando. A cena da miniplateia o fazia rever o auditório de sua escola debochando, atirando coisas e gritando “fora!”.
Jimmy ainda não tinha acabado de deixar o palco, quando ouviu o diretor gritando com a equipe:

“Vocês gastam meu tempo me fazendo ouvir tipos como este? Deveriam tratar de fazerem uma pré-seleção dos candidatos, pelo amor de Deus!”.

Outros que estavam sobre o palco esperando a vez de serem testados, prendiam a boca e olhavam para o chão, tentando não rir.
Pelo menos dessa vez saía com os óculos inteiros! Quando da apresentação no colegial a impossibilidade de enxergar bem com as lentas sujas pelos tomates arremessados o fizeram cair ao sair do palco, e depois precisou remendar as hastes dos óculos que se quebraram no tombo.

Jimmy Desjardins era um indivíduo de baixa estatura, um pouco abaixo do peso, se vestia de modo bastante cafona, usava um corte de cabelo fora de moda e era desprovido de beleza – uma figura nada cativante.

Quando deixou o teatro onde aconteciam as audições, Jimmy parou atordoado ao lado da porta de saída e levou as mãos aos ouvidos e cerrou os olhos. Em sua cabeça, a voz do diretor repetia sem parar as palavras ditas quando interrompeu sua apresentação. Passou um longo tempo assim, ignorando quem passasse por ele. Jimmy não chorou, não se consegue chorar quando se está tão nervoso como ele estava.

Quando conseguiu, se afastou do local, parando no primeiro lugar onde poderia conseguir beber um trago.
Jimmy estava sentado apoiando a cabeça na mão do braço que tinha o cotovelo sobre a mesa. Quando um homem bem trajado, com ar de pessoa importante, o tipo de pessoa que não daria atenção a um sujeito como Desjardins, se sentou à mesa de frente para ele.

- Você sonha em ser cantor de sucesso. Esse é seu sonho, não é, filho? – disse o homem.
Jimmy voltou o olhar para o sujeito e perguntou:
- Como o senhor sabe?
- Eu vi sua apresentação no teatro há pouco.
Jimmy se preparava para ouvir mais um conselho, como o do diretor de elenco, quando o homem continuou:
- Você pode ser muito mais do que todos os que estavam lá.
Desjardins se surpreendeu com a afirmação. E o homem continuou:
- Eu sei o quanto você desejaria poder chutar a bunda daquele tipo que te humilhou lá dentro. Deseja ser famoso e desfrutar os frutos da fama, tais como mulheres, belos carros...
- Com certeza seria um sonho...
- Quem não gostaria de mulheres e carros potentes, não é verdade?
Eles riram.
O homem completou:
- Creia em mim, você pode.
- O senhor acredita mesmo em meu potencial? – perguntou Jimmy.
- Eu o ouvi lá, não foi? – respondeu o homem.
- O senhor trabalha com música?
- Eu trabalho, trabalho com desejos e sonhos e sei que você não deixará passar uma oportunidade de conseguir concretizar os seus.
- Eu faria qualquer coisa, daria qualquer coisa – Jimmy respondeu enfático.
O homem sorriu satisfeito e em seguida perguntou:
- Certamente conhece o Festival dos Novos Ídolos?
- Claro que conheço, senhor! É o maior festival do país! Quem o vence tem carreira garantida, todos os grandes nomes da música de hoje vieram do Festival!
- Pois, eu quero que você participe dele. Você será um dos grandes se assinar contrato comigo. – o sujeito estendeu uma folha de contrato sobre a mesa.
Jimmy não pestanejou e assinou “Jimmy F. Desjardins”.
O homem guardou cuidadosamente o contrato no bolso interno do paletó de seu terno.
- O senhor tem uma música que queira que eu cante? Sabe, eu sou apenas interprete vocal... – respondia Jimmy, quando o homem esticou novamente a mão sobre a mesa, dessa vez entregando a Desjardins um cartão. “Alen Hopley – produtor musical” – dizia o cartão.
- Ele trabalha para mim, vai orientá-lo no que for preciso, e terá uma música para você. – concluiu o homem, e se levantou. Jimmy, agradecido e sonhador, se levantou apressadamente para apertar a mão do homem.

***
Quando Jimmy chegou ao estúdio de Alen Hopley, se sentia em outro mundo. Nunca havia estado em um estúdio musical em sua vida. Hopley tinha uma música pronta para ser interpretada por Desjardins no Festival dos Novos Ídolos.

- Bem, não gosto desse “Desjardins”, seu nome artístico será apenas “Jimmy”. – disse Hopley.



No dia de sua apresentação como candidato ao Festival, Jimmy deixou os óculos de lado e trajou roupa semi social escolhida por Hopley.

Jimmy se posicionou ao centro do palco. Chamava-lhe a atenção não ter a vista embasada pela falta dos óculos.

Piano e teclado começaram a linda melodia composta por Hopley. Mais alguns instrumentos os seguiram e Jimmy começou a cantar de forma irretocável. A música seguiu suave, até que ganhou corpo e subiu de tom no refrão. Jimmy alcançava de forma perfeita as mais altas notas e a cada repetição do refrão Jimmy subia ainda mais as notas sem precisar usar falsetes! Aquele homenzinho feio e de baixa estatura se tornava um gigante diante da plateia que se encantava. Não houve quem não se sentisse emocionado com a canção. Não fora, no entanto, a linda melodia de Hopley, nem as frases enigmáticas e indecifráveis da letra da música, Foi a voz potente, ímpar, a interpretação mais que perfeita de Jimmy que fez todos os presentes verterem lágrimas de emoção, sentindo suas almas serem atravessadas!
Ao termino da apresentação houve um momento de silêncio até que público e jurados conseguissem controlar a emoção. Então, houve a grande ovação com todos, mesmo os jurados, de pé, aplaudindo extasiados a Jimmy.

Jimmy venceu por unanimidade o Festival e se tornou instantaneamente um astro da música. Imediatamente todas as grandes gravadoras do país se estapeavam pelo contrato do vencedor do festival! Seu primeiro álbum incluiu, além da canção vencedora, mais dez músicas compostas por Hopley, e Jimmy até se aventurou a também escrever, e uma canção assinada por ele completou o repertório do álbum, que vendeu milhões de cópias. O nome “Jimmy” passou a ser visto em forma de grandes letras iluminadas nas entradas das maiores e melhores casas de shows de todo o país. E logo Jimmy se apresentava também no exterior. 

Jimmy estava onde sempre desejara estar! Estava no topo! 
Colecionou potentes carros esportes – depois da música era essa sua grande paixão – que gostava de ver estacionados à frente de sua vistosa mansão. 
O antigo garoto estranho, sempre desprezado pelas meninas da escola, que preferiam os garotos populares, passou a ter ao seu dispor multidões de tietes apaixonadas. 
Jimmy se esbaldava da fama, do sucesso e da fortuna em curto prazo! 
Só nunca conseguiu os louros da crítica especializada. Quando lia as críticas escritas pelos jornais, se enfurecia e os rasgava, arremessando-os ao chão.
Tornou-se cada vez mais arrogante. Humilhava os que trabalhavam para ele e todos que lhe fossem subalternos. Humilhava também as muitas mulheres com que dormia.
Seus álbuns seguintes não repetiram o sucesso de seu primeiro trabalho, mas continuava arrastando multidões aos locais de suas apresentações. 

                                                                         ***

Três anos após emergir ao topo da fama, Jimmy chegava a sua moradia, retornando de uma apresentação. Quando entrou na sala da mansão se assustou ao perceber um homem sentado em uma poltrona. Jimmy via o vulto do homem e podia ver que usava chapéu. A penumbra, contudo, escondia o rosto, ocultando sua identidade.

- Quem te deixou entrar? E o que está fazendo aí? – perguntou Jimmy preocupado e indignado com a falha de seus seguranças, ao permitirem a entrada de quem quer que fosse à sua casa.

O homem permaneceu em silêncio. Jimmy apertou os olhos, forçando a vista e esticou o pescoço, tentando identificar o individuo. 

- Quem é você, e o que faz aqui? – insistiu Desjardins.

O homem calmamente se levantou. Ao se levantar respondeu:

- Não se recorda de mim, Jimmy?

Aquela voz era familiar! O homem estendeu a mão, que segurava uma folha, um contrato assinado por Jimmy.

Jimmy então se lembrou da voz, era o homem com quem conversara após a humilhação na seleção de elenco anos atrás, com quem assinara contrato e por quem fora enviado a Hopley.

O homem caminhou mais adiante até onde a luz que vinha de fora o iluminava, no entanto, o chapéu ainda lhe ocultava a fase.

É um prazer reencontrá-lo, Sr. Desjardins, Acho que não lhe disse meu nome na ocasião de nosso primeiro encontro. Espero que você o adivinhe! – disse isso retirando o chapéu, com um gesto cortês.

Jimmy pode ler no contrato em que assinou, que se comprometia a entregar sua alma imortal em troca do sucesso no mundo musical.

- Eu já lhe dei tudo o que prometi naquela tarde, Sr. Desjardins, e o senhor usufruiu o bastante para que minha parte do acordo seja considerada quite. Hoje venho buscar o que me é de direito – disse o homem.

Só então, Jimmy se deu conta, de que tratara com o Demônio.

O pequeno Jimmy Desjardins deu três passos desengonçados para trás, tropeçando nas próprias pernas. E viu o rosto do homem se tornar horrendo.

Aos gritos Jimmy correu, caindo várias vezes pelo caminho, até um de seus carros esporte. 

- Está se esquecendo dos seus óculos, Jimmy – o demônio disse às gargalhadas.

Jimmy deu a partida no veículo e saiu a toda velocidade, deixando a propriedade. Correu com seu carro à velocidade máxima pela estrada, em pânico.
No segundo quilometro de sua fuga, o carro de Jimmy se chocou com um pesado caminhão. Jimmy foi arremessado através do para-brisa. Morreu ao se chocar fortemente com o asfalto. Seus miolos se espalharam na estrada.

No dia seguinte os jornais davam conta da morte trágica do grande astro da música em acidente automobilístico. 
Fãs choravam a morte do ídolo, acendiam velas e rezavam pela paz da alma de Jimmy, que já não lhe pertencia mais.

Jimmy pagou um alto preço. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Para Sempre



Jane e Harold se conheceram na adolescência. Harold se apaixonara por Jane à primeira vista. Mas demorariam dois longos anos até que ele tivesse coragem de pedi-la em namoro. O medo de ser rejeitado pelo grande amor de sua vida o impedira até que se tornasse insuportável seguir adiante sem o pedido. Quando finalmente o pedido foi feito, Jane mal pode acreditar. Esperara por aquele pedido desde que conhecera Harold!


Depois de apenas dois anos de namoro Jane e Harold noivaram! Não havia porque esperar mais! Ambos tinham certeza de que seu amor era eterno! Repetiam incessantemente todos os dias as juras de que estariam juntos para sempre!
A festa de noivado foi simples, pois tinham condições econômicas humildes.
Jane e Harold estavam mais felizes do que nunca.

O casamento também não tardou a acontecer. – Um ano após o noivado.

O padre hesitou e um pouco contra gosto, aceitou que os noivos substituíssem o tradicional “até que a morte os separe”, pela jura preferida do casal: “Para sempre”. E assim se fez! Juraram sacramentalmente amarem-se, respeitarem-se na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, para sempre!

O casal vivia de modo simples, mas muito feliz. Após todos esses anos ainda repetiam inúmeras vezes que eram um do outro para sempre.
A vida simples não era motivo de infelicidade.
Harold conseguira emprego distante de onde moravam e, por questões de economia, ia e voltava do o trabalho de bicicleta, gastando cerca de duas horas no percurso.
Harold chegava do serviço por volta de meia-noite. Jane o esperava ansiosa todas as noites.

Até que uma tragédia aconteceu. Em uma noite, quando Harold pedalava pelo trecho da estrada interestadual por onde passava em seu trajeto de volta, um motorista de caminhão, exausto pelo excesso de horas de viagem, cedeu ao sono, dormindo ao volante. Harold não tivera sequer tempo de identificar o que foi o clarão que tão repentinamente surgira diante dele! Eram os faróis do caminhão.

Ambas as famílias, as de Harold e Jane compareceram ao enterro simples e tão tocante. Jane passou os dias seguintes entregue às lágrimas.

Algumas noites depois, Jane dormia no antigo quarto e cama do casal, quando foi acordando, sentindo-se abraçada. Ainda em um estado de sonho misturado com a realidade, disse o nome do amado marido morto, ouvindo “Jane” como resposta. Sentia o abraço e as carícias de Harold! Até que se viu sozinha no quarto! No entanto, ainda sentia seu corpo sendo tocado! Viu também partes do colchão afundar, como se houvesse alguém com ela! Jane sentiu medo, mas não se levantou. Algo frio parecia deslizar pela pele arrepiada de Jane, que, apesar do medo, acabou por se deixar dominar. Jane cerrava as mãos segurando os lençóis e arqueava suas pernas enquanto gemia de prazer.

O que passou a se repetir todas as noites, sempre à meia-noite, o horário em que Harold costumava chegar do trabalho quando vivo.

Jane passou a esperar a meia-noite. Todas as noites quando o horário se aproximava ela tomava um demorado banho, se perfumava e vestia seu mais bonito lingerie, como quem esperava o amado marido.


Jane não quis mudar nada em casa, mantendo tudo como era e onde estava quando Harold ainda era vivo.

Muito após o período que se convenciona manter luto, Jane continuava devotada à memória do marido morto.

Passado ainda mais tempo as pessoas comentavam que Jane se entregara muito cedo à viuvez. Afinal, era ainda jovem e bonita, além do que, o casal não chegara a ter filhos.
Alguns opinavam que a morte trágica e precoce de Harold a abalara em demasia, enlouquecendo-a.

“Como pode? Manter as coisas do defunto no mesmo lugar até hoje, depois de todo esse tempo!”.

Passado mais algum tempo começaram as fofocas no bairro sobre a jovem viúva. Havia os que diziam que ela deveria estar envolvida em um relacionamento que não poderia ser assumido.

“Ela é muito jovem e bonita para estar casta desde a partida do defunto!”.

A curiosidade dos vizinhos os levou a futricar em torno da casa. Vizinhos espiavam pelas frestas das janelas, passavam pela rua tentando ver ou ouvir o que a viúva fazia. Logo a espionagem gerou a notícia:

“Sempre à meia-noite se ouve a viúva gemendo como quem pratica o coito!”.

Isso por um lado reforçou as suspeitas de que Jane se envolvera com algum homem casado.

“Se encontram às escondidas todas as noites!”.

Mas também os mais supersticiosos e dados a crer em espíritos, formularam sua tese:

“É como se espírito do defunto a visitasse todas as noites!”

“Eu não duvido de que seja a alma penada do moço”...

As vizinhas futriqueiras deram conta de habitualmente verem Jane com a luz acesa, sempre perto da meia-noite se arrumando!

“Tá vendo? É para receber o amante!” – diziam uns.

“É para a alma penada do defunto!” – outros diziam se benzendo.

Como nunca se conseguia flagrar um suposto amante, o que acabou prevalecendo foi que, macabramente, a jovem e bela viúva recebia a alma do defunto, que sem se dar conta da própria morte assombrava a casa todas as noites à hora que em vida costumava chegar do trabalho.

O que nunca houve, foi quem tivesse coragem de tocar no assunto com Jane.

Jane mantinha a devoção e obsessão pelo marido morto. Em casa porta-retratos eram verdadeiros altares à memória de Harold. E todas as noites ela cumpria o estranho ritual de esperar pelo marido e se entregar ao prazer em sua cama.

Mas depois de alguns anos Jane não suportava mais a ausência de Harold. Durante a noite passou a esperar a meia-noite em choro e pedia incessantemente à alma do marido:

“Leve-me, meu amor! Leva-me para junto de ti! Essa vida aqui já me é insuportável! Leve-me contigo, meu amado Harold!”

Poucos meses depois Jane foi diagnosticada como tendo “uma doença rara, ainda desconhecida”. Os médicos se esforçaram, mas Jane não melhorava. Além do que, não tomava os remédios, secretamente jogando-os fora. Sua doença era Harold que atendia ao seu pedido, tomar os remédios seria trair seu amor!

Não demorou e Jane veio a falecer. E por muito tempo a antiga casa do casal permaneceu vazia.

Algumas pessoas juram que após a morte da viúva, quando se passava próximo a casa era possível ouvir o casal fazendo amor repetindo:

“Para sempre!”.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

O Perdão do Caiçara


A história de hoje eu, como uma caçadora de histórias, encontrei em uma revista dos anos 1970. A “Planeta” solicitava aos seus leitores que enviassem casos “sobrenaturais” vivenciados por eles ou que fossem de seu conhecimento.

“O Perdão do Caiçara” é uma história que foi enviada à redação da citada revista por uma leitora como um caso real. Eu alterei a narrativa, sem alterar os fatos da história, para tentar criar algum suspense.
Espero que você goste de ler!




Francisco era pobre e vivia em uma casa mal construída, na beira do litoral, em uma comunidade com milhares de outros caiçaras e havia obtido repentinamente uma quantia em dinheiro alta para o seu padrão de vida.
‘Tivera muita sorte na pescaria’ – explicava assim sua pequena fortuna, proveniente das muitas ostras com pérolas com as quais retornara de uma noite de pesca em alto mar. 

Dois depois da sorte enriquecedora de Francisco, o mar devolveu um corpo, que foi reconhecido. Tratava-se do cadáver de Pedro, outro caiçara da comunidade. O enterro foi simples, despojado, mas tocante. Pedro não chegara a ter filhos, apesar de gostar muito de crianças.

Imaginava-se que Pedro morrera no mar traiçoeiro. Ninguém cogitava o modo como realmente morrera. 

Pedro e Francisco, certa noite, saíram juntos para pescar em alto mar. E fora de Pedro a “sorte” de pescar muitas ostras com pérolas. Ao pensar no dinheiro que poderia obter com a soma de tantas pérolas Francisco se deixou tomar pela ambição e não hesitou em matar Pedro e jogar no mar o corpo daquele que fora seu vizinho e amigo por muitos anos.

Apesar da impunidade, Francisco, desde o enterro de Pedro, passara a ter pesadelos terríveis. Francisco passou a visitar todos os dias o túmulo do ex-amigo, rezando pela salvação da alma de Pedro. Temia que o ex-companheiro voltasse para prejudica-lo em vingança e pedia, à alma do caiçara assassinado, perdão pelo o que tinha feito.

***

Um ano depois, Joãozinho, filho de Francisco, veio pedir ao pai para dar um passeio de barco com alguns vizinhos. Apesar de viver sobressaltado, ele não podia recusar o pedido. Algumas horas depois, ele já estava apavorado com a demora do garoto.

Antes do fim do dia, porém, Joãozinho voltou todo molhado e contou assustado ao Pai: “O barco bateu nas pedras e todo mundo caiu na água. Tio Pedro estava lá e me carregou até a praia. Ele disse que gostava muito de mim e do senhor”. Alguns dias depois, os corpos dos demais ocupantes do barco foram encontrados na praia.



Bibliografia consultada: Revista Planeta, nº 13 – setembro 1973. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Retrato Maldito


Você provavelmente adora postar fotos suas em redes sociais e outros sites: Facebook, Instagram...  Agora imagine se algumas religiões antigas estiverem certas quanto a uma antiga tradição que proíbe a reprodução da imagem humana. Com a reprodução – acreditam – perdemos parte de nossas almas!
Hoje trago uma história, que encontrei pesquisando por histórias estranhas, em revistas antigas, sobre um rei que proibia ser fotografado!




"Não farás para ti nenhum ídolo, ne­nhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra”. Exodo 20, 4.

O rei Yahia do Iémen proibia a entrada de fotógrafos em seu palácio e punia, com a pena de morte, quem tentasse fotografá-lo. Isso ocorreu na década de 1940.
A proibição se baseava na antiga tradição que cercava a reprodução da imagem humana, proibida por algumas religiões. Com a reprodução, dizem, o homem perde uma parte de sua alma.
Se a imagem do rei Yahia fosse reproduzida e essa reprodução corresse pelo mundo, não apenas ele, mas também todos de sua família estariam condenados a morrer.

Nos limites do reino, o controle das máquinas fotográficas era fácil de ser mantido. O rei, no entanto, não contava com um outro elemento: a memória humana.
Certa vez, o rei permitiu que um grupo de artistas estrangeiros visitasse seu esplêndido palácio. Entre eles estava um pintor italiano dotado da aptidão que costumamos chamar de “memória fotográfica”. Esse artista pode contemplar o rei – durante uma audiência – por mais de uma hora.
Dessa maneira, o semblante rude e bem talhado do soberano octogenário foi reproduzido em tela. Imediatamente, milhares de fotografias do quadro foram distribuídas pelos jornais do mundo inteiro. No dia em que os primeiros jornais, com a reprodução da imagem do monarca, chegaram às bancas, o rei Yahia foi barbaramente assassinado em um golpe palaciano.
A maldição estava cumprida.

Bibliografia: Revista Planeta nº13, setembro de 1973.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Perseguição - Final


Continuando


Ao ler o bilhete Selena entra em pânico. Ela tem certeza de que o homem de chapéu e sobretudo pretos está por perto.  Tremula, ela guarda o bilhete na bolsa e decide ligar para a polícia. Ela se senta no sofá e pega o telefone. O telefone está mudo. Ela verifica o fio e descobre que foi cortado. Ela, então, volta o olhar para frente, se deparando com o homem de chapéu. Antes que ela conseguisse se levantar, ele a ataca e começa a tentar estrangulá-la. Selena luta para escapar de seu agressor, no combate acaba tirando o chapéu do homem e o agressor tem sua face revelada!
Ao ver que Selena viu seu rosto o homem hesita e Selena consegue, aproveitando-se da hesitação, alcançar um vaso que estava sobre a mesinha e golpeia seu agressor. Ele sente o golpe levando as mãos à cabeça. Selena o afasta com um chute, e antes que ele se recupere, ela foge do apartamento.

Selena corre pelas ruas em desespero até a delegacia.

As viaturas de toda a proximidade são acionadas.
Selena mostra o bilhete deixado pelo perseguidor ao policial Dennis e as marcas da tentativa de estrangulamento.

“Eu vi o rosto dele! É meu ex-vizinho! É Tony Darnell! Ele que está me perseguindo!” – Selena diz a Dennis.

Dennis vai à sala do detetive Carmichael.

“Selena Garvey sofreu nova agressão! Ele voltou ao apartamento dela e tentou estrangulá-la! Mas ela reconheceu o agressor! Agora sabemos a identidade dele! Trata-se de um tal Tony Darnell” – disse Dennis.

“Anthony Darnell, ex-vizinho dos tempos de adolescência dela na cidade onde morou antes de se mudar para nossa cidade” – disse Carmichael e continuou – “Como você sabe, Dennis, eu tenho investigado a vida particular de Selena Garvey e interrogado todos os suspeitos de desejarem vingança pessoal contra ela. E Anthony Darnell, vulgo Tony Darnell foi um dos suspeitos que procurei e ele tem um álibi irrefutável neste caso”.

Carmichael procurou na gaveta e entregou uma foto de Darnell a Dennis, e disse:

“Darnell era conhecido na região por ser um pervertido, um voyeur e alguém que passava trotes para mulheres jovens... Ele foi morto numa briga, depois de uma discussão fútil, em um bar quatro anos atrás”.

***

O bilhete levado por Selena foi examinado e não havia digitais do agressor, as imagens das câmeras de seguranças tampouco revelaram a invasão do homem de chapéu e sobretudo. No apartamento dela nada além dos cacos do vaso e o fio cortado foi encontrado. Novamente nenhum vestígio do agressor. Selena reafirma que Anthony Darnell é o homem que invadiu seu apartamento duas vezes reconhecendo a fotografia apresentada pelos policiais.

O policial Dennis está perplexo sobre o caso. E Carmichael anuncia para surpresa de todos:

“O crime está elucidado! Dennis, você se lembra de que eu lhe disse que sempre há pistas, só que às vezes nós demoramos a percebê-las?”

“Sim, mas não entendo” – respondeu Dennis.

“Nossa principal pista é a ausência das pistas! Não houve vestígios de um invasor nos dois ataques, as câmeras que instalamos não gravaram ninguém mais entrando no prédio... Durante as investigações sobre a vida particular de Selena, averiguei que Anthony Darnell, seu vizinho da época em que ela era adolescente, invadiu a sua casa e tentou estupra-la sem êxito. Selena conseguiu escapar de Darnell na ocasião. No entanto o evento foi para senhorita Garvey um extremo estressor traumático. Selena sofre de Transtorno de Estresse Pós- Traumático. A característica essencial desse Transtorno é o desenvolvimento de sintomas após a exposição ao evento. Uma pequena proporção de pacientes, e este é o caso de Selena, pode sofrer um curso crônico de muitos anos. O evento traumático é revivido através de atos que dão a impressão de que o evento traumático esteja recorrendo através de delírios e alucinações. Vocês não repararam nas marcas no pescoço da senhorita Garvey?” – Carmichael levou as mãos ao pescoço demonstrando como as marcas correspondiam a auto estrangulamento “Ou no ângulo da facada do primeiro ataque?” – Carmichael levou as mãos às costas demonstrando como Selena teria se auto esfaqueado. “Senhores, o executor dos ataques contra Selena Garvey é... A senhorita Selena Garvey!”.

***

O caso foi solucionado.
Selena foi encaminhada para tratamento psicológico

FIM


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Perseguição




Imagine um perseguidor que não deixa rastros, que a polícia possa seguir, identificar ou deter, que saiba tudo sobre você e é capaz de estar onde quer que você esteja, passar por qualquer sistema de vigilância sem ser detectado.

Selena será atacada, ameaçada e perseguida!

Baseado em fatos reais ocorridos na década de 1980.

Nomes e locais foram alterados e datas omitidas para preservar a identidade dos envolvidos.





Selena estava deitada em seu quarto, ela havia perdido o sono. Morava em um pequeno prédio de apenas dois andares, cada um com um apartamento, o seu era o de cima. Seus vizinhos do térreo haviam se mudado na véspera e ela estava sozinha no prédio.
O relógio já marcava três horas da madrugada quando ela pensou ter ouvido um barulho dentro do apartamento.
Começou a olhar em volta preocupada.
Por uma segunda vez lhe pareceu ter ouvido um barulho. Preferiu verificar, crendo que poderia ter sido só impressão, a continuar acuada no quarto com medo.
Tensa, percorreu o corredor até a sala – não havia ninguém. Foi até a cozinha – nada. Porém, quando se virava para retornar ao quarto ela vê de súbito um homem de chapéu trajando um sobretudo preto. Mas não consegue ver seu rosto.
Ele avança contra ela e a agarra, mas Selena consegue se desvencilhar e corre para a porta da sala. O homem tropeça em algo pelo caminho e cai. Enquanto ele está no chão ela destranca a porta. Mas antes que ela fuja, ele a apunhala as costas. Selena sente uma dor lancinante, mas não percebe a principio, que se trata de uma faca. Mesmo ferida ela consegue fechar e trancar a porta com o agressor dentro do apartamento e foge para a rua.

***

Era, como tantas outras, naquele distrito, uma noite calma na delegacia. Até Selena entrar com a faca cravada até o cabo em suas costas.
Não se sabe como foi capaz de percorrer, ferida de tal modo, a distância de pouco mais de dois quarteirões, que separavam o prédio onde morava da delegacia.
A polícia providenciou o socorro médico. Selena relatou o ocorrido e seu local de residência. Todas as viaturas policiais nas proximidades foram informadas, mas nenhum suspeito sequer foi avistado pelas rondas policiais.

***

O detetive investigador Carmichael foi designado para o caso, e acompanhado pelo policial perito Dennis, foi até o apartamento de Selena Garvey.

***

No apartamento havia sangue no chão perto da porta da sala e uma pequena confusão na cozinha, onde Selena afirmou ter encontrado seu agressor, uma gaveta de talheres estava aberta.
Tudo mais no apartamento parecia em ordem.
Carmichael observou que uma janela estava aberta e próximo a ela havia uma árvore pela qual alguém poderia ter invadido o apartamento.
Dennis procura infrutiferamente por vestígios do agressor. Não havia digitais, nem pegadas ou quaisquer vestígios do invasor.

“É frustrante, detetive! Não há pistas deixadas por esse invasor!” – disse o policial Dennis.

“Sempre há pistas, Dennis... Mas às vezes demoramos a percebê-las” – respondeu Carmichael.

Carmichael reconhecia na janela aberta e na ausência de moradores no primeiro andar uma oportunidade, mas e o motivo? Como nada parecia ter sido levado do local, o investigador descartava a ideia de roubo como a motivação.

“Acredita que ela possa ter sido uma vítima aleatória de algum psicopata, que tenha prazer em provocar pânico, que tendo percebido a janela aberta reconheceu uma oportunidade, detetive?” – perguntou Dennis.

“Estou mais propenso a pensar em vingança pessoal, policial! A vítima informou que os vizinhos do andar térreo se mudaram na véspera. Creio que o agressor sabia que ela estava completamente só no prédio, portanto o agressor deve ter tido informações prévias sobre a vítima. Também me chama em especial a atenção o fato dele não a ter perseguido após tê-la ferido” – respondeu Carmichael.

***

Os médicos removeram a faca das costas de Selena. Embora a lâmina tivesse penetrado até quase os rins, ele não ficou com nenhuma lesão permanente. Na faca fina e afiada retirada não foram encontradas suas digitais, nem exames em Selena revelaram qualquer vestígio do agressor.
Assim que Selena Garvey estava em condições, o detetive Carmichael a interrogou sobre sua vida particular em busca de suspeitos que poderiam desejar algum tipo de vingança. Ex-namorados e prováveis desafetos compunham uma lista de suspeitos, que a polícia passou a investigar.
Selena, muito assustada e falando de forma quase paranoica sobre um possível retorno do seu agressor, não queria voltar ao apartamento após receber alta. Concordando em retornar para casa apenas após a polícia procurar tranquiliza-la e prometendo a instalação de câmeras de vigilância em torno de seu prédio.

***

Selena retorna a seu apartamento as câmeras são instaladas e a senhorita Garvey segue as recomendações de segurança transmitidas pela polícia. O detetive Carmichael continua suas investigações. Alguns dias se passam e Selena retoma sua rotina de atividades. Tudo permanece calmo até o dia em que ao chegar a seu apartamento Selena Garvey encontra um bilhete ameaçador deixado debaixo de sua porta.

“Nos encontraremos de novo, eu voltarei a visitá-la”.


Continua...


terça-feira, 1 de abril de 2014

Dia da Mentira/ Histórias que meu Pai me Contou


Hoje é primeiro de abril, o famoso dia da mentira.
E nessa semana ainda, dia quatro, é aniversário do meu pai, Dr. Olavo.
Isso me faz lembrar uma história, que creio que a maioria dos pais conta sobre mentiras.
Quando eu era criança adorava ir com meus pais à piscina do clube. E certa vez fingi que estava me afogando #QuemNunca? Bati meus bracinhos enquanto pulava e gritava que estava me afogando.

Mas se eu resolvi fingir afogamento, papai resolveu fingir que acreditou! Tal qual o ‘super papai’ saiu em meu socorro como numa cena de cinema! E ele simulou tão bem que teria acreditado, que eu tive convicção de tê-lo enganado.
Fora da piscina, sentindo-me gloriosa pela traquinagem disse “eu estava fingindo!”.
Então ele me contou a clássica história:



“Aqui mesmo, no nosso clube, havia um menino que gostava de fingir estar se afogando. Nessa mesma piscina em que você estava! E todas as vezes que ele fingia as pessoas corriam para socorrê-lo! Até que um dia aconteceu dele se afogar de verdade! Mas ele havia fingido tantas vezes que nesse dia ninguém o socorreu, pois pensaram que era mais um fingimento! E ele pediu socorro, gritou e gritou... Mas as pessoas continuaram sem acreditar e ele morreu afogado!”.


Fiquei impressionada, acreditando piamente na “História de Terror Assustador que dava Medo” que ouvi do meu pai! E nunca mais fingi afogamento.
E ficou a moral: Quem conta muita mentira fica com fama de mentiroso e depois quando conta a verdade ninguém acredita.

...beijinhos***