quinta-feira, 17 de julho de 2014

Contos Trash de Aline Thompson



O Balanço


–“Olhe, Phil! Tem um balanço naquela árvore do jardim! Ele me faz lembrar de quando eu era criança e adorava balançar em um que papai fez pra mim, em nossa casa!” – disse Audra ao marido, logo que o casal Reardon, chegara para ver a casa que viriam a adquirir em Princeton - Maine. Uma bela casa vitoriana em ambiente campestre, com vista para a floresta.

Após a mudança, Audra arrumava um dos quartos do segundo andar da casa, quando experimentou a vista da janela, observou de lá, o balanço na árvore do quintal.
O balanço se movia, para frente e para trás.

– “Que estranho, Phil! O balanço está se movendo como se tivesse alguém nele!” – comentou com o marido, que cuidava de alguns papeis de seu trabalho, no cômodo contíguo.

– “Com certeza é o vento, querida!” – ele respondeu de lá.
– “Deve ser” – assentiu a esposa.

Audra tornou a observar o balanço, que continuava a se mover. Mas percebeu que as folhas da copa da árvore não se moviam como fariam com o vento, estando completamente paradas. Ela abriu a janela para confirmar a ausência do vento.
Então ouviu baixinho uma voz de criança cantarolando. Estranhamente parecia vir do balanço no jardim.

– “Querido, sabe se os vizinhos ao lado têm crianças?” – perguntou Audra.
– “Não sei, meu amor. Os corretores não comentaram nada sobre isso e não tive contato com os vizinhos. Isso tem alguma importância?” – disse Phil.
– “Não, nenhuma. Apenas me pareceu ter ouvido uma menininha cantando lá fora!” – respondeu a esposa.

Audra tornou a olhar pela janela. Acreditou que a voz infantil viesse de qualquer lugar próximo, parecendo vir do jardim pela ilusão acústica. Mas lhe intrigava o movimento do balanço.

– “Phil, não está ventando, não pode ser o vento que está movendo o balanço”.
– “Deve ter sido nosso cão, que passou lá e esbarrou nele!” – Phil respondeu sem dar importância ao assunto.

Não poderia ser o cão – pensou Audra. O balanço não se moveria tanto tempo, além do mais, se o fosse, o balanço já teria diminuído seu movimento e parado há algum tempo, mas mantinha-se constantemente no ritmo. Ela, então, voltou à janela e observou que o cão dormia tranquilamente, próximo ao portão, e muito distante do balanço.

– “Phil, não foi o cachorro!”.
–“Ah, Audra, pode ser alguma criança. Você não escutou crianças lá fora?”.
A esposa voltou a observar o balanço. Ele continua a se mover, sempre no mesmo ritmo. Audra se manteve na janela, observando.
Então, repentinamente, o balanço parou, causando ainda mais estranheza para a esposa.
E em seguida, retomou o movimento e o ritmo.
Avaliando o mistério, Audra se deu conta que da janela, não lhe era possível ver o galho, onde as cordas do balanço estavam presas, e, poderia haver alguma criança oculta na copa da árvore, se distraindo em fazer o balanço se mover.

– “Phil, pode ir ao jardim e verificar a árvore do balanço?”.
– “Meu Deus, Audra! Eu estou ocupado com o trabalho! Depois vou lá, se quiser!” – bramiu o marido.
– “Acho que tem crianças na copa da árvore!” – a esposa insistiu.
– “Por que você, que não está ocupada, não vai lá e diz para elas que não podem entrar no nosso quintal?” – o marido respondeu.

Audra se irritou com a resposta do marido e resolveu ir jardim.
Quando ela chegou ao quintal o balanço estava parado. Ela foi a passos apressados até a árvore, investigar se haviam crianças em seus galhos.
Mas quando estava diante do balanço viu algo, que lhe fez gelar de medo. Algo que não vira lá de cima. O balanço estava vazio, contudo a sombra no chão era a de uma menininha sentada no balanço.
Audra quis gritar, mas a voz não lhe saiu, seu coração disparou, as pernas lhe falharam primeiro, e quando conseguiu se mover tentou correr, mas sentiu-se agarrada pelos tornozelos e caiu na grama. Tentava gritar, mas engasgava sem conseguir. Ouviu uma vozinha de menina dizer “alguém pra brincar comigo”. Começou a ser arrastada para o balanço, tentou infrutiferamente se agarrar na terra.

Horas depois, quando Phil procurou pela esposa, foi ao jardim, onde a encontrou sentada no balanço com os ombros apoiados nas cordas Audra pendulava morta.



quinta-feira, 10 de julho de 2014

Noite Maldita 4 - cap 6




Capítulo Final

Ray passou a morar com Gina, que estava radiante em tê-lo consigo.
Certa vez, enquanto Ray estava fora, pelo que se sabia em serviço, Irene perguntou a Gina sobre ele.

“Você sabe onde ele faz segurança? Alguma vez já foi ao serviço dele, Gina?”

“Não, mas por que você tá perguntando isso, Irene? Você acha que pode ter alguma mulher que dê em cima dele no serviço?”

“Não é isso, Gina, é que... Ah, deixa pra lá... É só que... Diga-me, você me disse, faz tempo, quando vocês estavam começando a se relacionarem, que Ray é do interior, não foi?” – Irene mantinha baixo o tom da voz, enquanto conversava, vigiando se Melinda escutaria.

“Tá, e o que isso tem a ver?”

“Só me diz... Você sabe de que cidade no interior o Ray veio?”

“Não, realmente, ele nunca me disse... Só que havia se mudado para cá recentemente... Na verdade, acho que perguntei sim... Acho que ele disse algo sobre ser da região litorânea... Acho que... Mas aonde você quer chegar, Irene? Acha que ele pode estar escondendo algo, tipo ter uma família? Ser casado e com filhos lá na cidade dele? Ah, isso seria bem típico dos homens!”

“Nada, não quero chegar a lugar nenhum... É... Nada! Besteira, só... Deixa pra lá, Gina!”

O assunto foi abandonado. Gina deixou a conversa acreditando que Irene tinha dificuldade em simplesmente aceitar que alguém pudesse estar feliz em um relacionamento, e, portanto, queria ver problemas, procurar por eles – a pobre não teria se recuperado da perda do marido Bryan.
Irene deixou a conversa convencida de que Ray era alguém ligado à Maldição de Little Town, e que se aproximara de Gina, apenas para vigiar Damon de perto – Pobre Gina!

***

Irene passou a viver em constante agonia. Não conseguia descansar durante a noite, tendo poucas horas de sono leve, acordando com qualquer ruído, temia que a qualquer momento intentassem sequestrar Damon.
As horas no trabalho eram ainda mais agoniantes. Toda vez que deixava sua casa, olhava para Damon, temendo que aquela pudesse ser a última vez que o veria. Não conseguia manter a concentração durante o expediente, só conseguindo pensar sobre a chamada Maldição de Little Town.
Ela estava propensa a crer que Damon talvez fosse, de fato, uma criança predestinada a algo terrível. Se não o fosse, havia um grupo de pessoas que criam que fosse, e que não esperariam muito para arrancar-lhe o filho, uma vez que o próximo ano seria mais um décimo terceiro ano. Fosse como fosse, ela amava e continuaria a amar o filho, e teria que fazer algo se quisesse tê-lo consigo.

Certa tarde o patrão de Irene a chamou para conversar. Perguntou-lhe se estava passando por problemas pessoais, uma vez que ela, sempre muito boa funcionária, se tornara completamente improdutiva e distante durante o trabalho. Ofereceu-lhe a possibilidade de tirar alguns dias de folga. – Irene recusou, imaginando que qualquer mudança em sua rotina despertaria a desconfiança daqueles que a cercavam com a intenção de vigiar a Damon.

Irene concluiu que precisava fugir logo com o filho, no entanto, qualquer gesto que Melinda ou Ray pudessem identificar como uma preparação para uma partida, poderia resultar em uma reação destes sentinelas. Decidiu que partiria na manhã seguinte, sob o pretexto de levar o filho ao dentista. Partiriam para sempre e recomeçaria a vida o mais longe possível dali.

O erro de Irene, entretanto, foi esperar até a manhã seguinte.

***

Naquela noite, Irene acordou de seu sono de vigília ao ouvir leves ruídos e sons que pareciam ser passos vindos da sala. Levantou-se e foi até lá verificar. Em lá chegando, se apavorou com o que encontrou. O velho encapuzado havia invadido seu apartamento, e empunhava uma estranha e longa adaga. Ao vê-la, o invasor disse:

“Não quero te fazer mal, mulher. No entanto a criança maldita não pode viver! Saia do caminho, e me permita fazer o que tem que ser feito!”.

Irene avançou contra o encapuzado, agarrando-se à adaga, e iniciou luta corporal com o invasor.

No apartamento de Gina, Ray acordou.

“Parece que tá acontecendo algo na casa da Irene!” – disse Ray, já se levantando, e prendendo um revolver nas calças às costas e se dirigiu apressadamente para o apartamento de Irene.

“Tome cuidado, Ray! Pode ser perigoso!” – Gina gritou para o namorado, que a essa altura já chegava à sala do apartamento da mãe de Damon.

Damon acordou com o barulho da confusão, se levantou, e se dirigiu à sala.

Ray saltou sobre os combatentes, dominando facilmente o encapuzado. Irene caiu no chão, segurando a adaga.
Maior e mais forte, Ray mantinha o invasor sob seu domínio.
Ao ver Damon, Irene, aliviada da aflição da tentativa do encapuzado de tirar a vida de seu filho, e ainda segurando a adaga, correu em direção a Damon.
Mas antes que alguém pudesse fazer ou dizer algo, Melinda, que chegava correndo à sala, agarrou Irene por trás e enfiou-lhe um facão na barriga, soltando a mãe de Damon no chão, ou perceber que a abatera. E sorriu triunfante.

Damon assistiu surpreso à cena de Irene sangrando mortalmente no chão.

“Por que diabos você fez isso a essa mulher?” – Damon perguntou à Melinda.

“Mestre, ela correu com a adaga para lhe matar! Eu vi o histórico de pesquisas no computador dela, ela andou pesquisando sobre o senhor e sobre a maldição! Ela não estava com o velho que Ray dominou?” – respondeu Melinda.

Damon olhou para Irene, que com sangue na boca e já em agonia, respondeu:

“Eu corri para abraça-lo, filho. Tive muito medo pela sua vida...”.

O espírito vivente em Damon se compadeceu de Irene – um sentimento que não experimentava há muitos séculos.
Damon se abaixou e, acariciando Irene no rosto disse:

“Muito obrigado pelo amor e dedicação a mim... mãe”.

“Quem é você de verdade, Damon?”

“Eu sou o Feitor da Antiga Fazenda, aquele que há muito se converteu no Espírito Maldito”.

Irene, então, deu seu último suspiro.

Damon, calmamente apanhou a adaga e disse ao namorado de Gina:

“Coloque o velho bruxo de joelhos!”.

Ray forçou o encapuzado a se ajoelhar e o segurava pelos braços torcidos para trás.

“Demônio!” – bradou o encapuzado.

“Você está como toda Little Town, ajoelhado para mim, Cowley (vide “Noite Maldita 3”)” – disse Damon, chamando-o pelo nome.

“Está feliz pela morte dessa mulher inocente? Você mesmo a teria matado se tivesse conseguido, não é? Para tentar me assassinar” – Damon perguntou, se referindo à Irene.

“Seria uma vítima inocente, mas salvaria milhares de outras vidas inocentes” – respondeu Cowley.

“Curioso! Já ouvi gente sua dizer que vidas não podem ser tratadas como números, que não se pode fazer o bem através de um assassinato e críticas sobre os antigos moradores de Little Town me entregarem algumas vítimas a cada treze anos para evitar um número muito maior de mortes! Acontece que nos tornamos muito parecidos com o que odiamos, Cowley”.

“Você pode estar triunfando agora, Feitor. Mas chegará o dia em que você e todas as hordas do Inferno perecerão!” – Cowley, irado, respondeu.

“Cuidado com o tom, bruxo! Você não está em vantagem! Pensa, por acaso, que eu não sei o que estou segurando?” – Damon respondeu, se referindo à adaga. E prosseguiu – “É magia estrusca, magia que você usou para invadir este lugar sem ser percebido pelos meus sentinelas... Eu já eliminei Glaxton, e meu “papai” Bryan... O que Glaxton viu na bacia batismal foi quem eu realmente sou... Só lamento por não ter podido avisar pessoalmente a Bryan que ele gerara minha reencarnação... Mas a essa altura, lá no Inferno, ele já o sabe...” e se dirigindo à Melinda ordenou – “Abra as cortinas!” voltando-se a Cowley – “Olha só! A lua está bem de frente para as janelas! Foi por isso que escolheu essa hora, bruxo? Se, sob a luz da Lua, essa adaga for cravada no coração, mata-se, não só o corpo, como também o espírito da vítima. Você queria desintegrar meu espírito, não é velho? Não foi capaz de ler em seus relâmpagos de quem seria no final disso o espírito a ser extinguido?”

Cowley suava frio em profunda agonia, sabia que o Feitor não hesitaria.

“Estou lhe fazendo um favor, velho. O inferno pode ser bem pior do que deixar de existir... Isso me deixa curioso! A inexistência, a morte depois da morte! A Lua está bonita hoje, não está? Olhe-a pela última vez na existência de seu espírito, bruxo!”

Dizendo isso, Damon cravou a adaga no coração de Cowley. O coração do bruxo explodiu formando uma nuvem de luz, que em seguida se dissipou.

Ray soltou o corpo do velho no chão.
Damon olhou para Melinda e disse:

“Você demonstrou ser muito estúpida, matando por nada, minha progenitora nesta encarnação” e em seguida, se dirigindo ao namorado de Gina, ordenou – “Mate-a”.

Ray sacou o revolver que trazia às costas, e Melinda, aos prantos e ajoelhada, implorou inutilmente. Melinda caiu morta ao receber um tiro no peito.

Ao ouvir o tiro, Gina, que se mantinha aflita todo esse tempo, desesperada de preocupação com o namorado e com Irene e Damon, correu para a casa de Irene. Chegando à porta viu os corpos.

“Meu Deus, o que aconteceu aqui, Ray?” – Gina perguntou.

“Dylan, a “tia Gina” é uma testemunha inconveniente” – Damon disse, chamando o namorado de Gina por seu verdadeiro nome.

“Dylan? Seu nome não é Ray? Como Damon sabe? Você tem me enganado todo esse tempo?” – perguntou Gina com lágrimas nos olhos.

“Sinto muito, Gina” – Dylan respondeu, e em seguida disparou a arma, matando Gina.

“Nunca gostei dela!” – comentou Damon.

“Que bela bagunça isso aqui ficou! Limpe seu revolver, depois, usando luvas, coloque-o na mão do bruxo e dispare, para deixar um pouco de pólvora na mão dele... Vamos fazer parecer foi tudo uma tentativa de roubo do velho. Você chegou aqui depois e me encontrou escondido com medo no quarto... A polícia nem se dará ao trabalho de investigar muito o ocorrido...” – disse Damon.

“Sim, senhor Feitor” – Dylan respondeu.

O demônio olhou para o corpo de Irene e disse “Me chame de ‘Damon’, ela escolheu esse nome”.

Dylan procedeu como o instruíra Damon, levando-o à Polícia, que o encaminhou para o Serviço Social.

***

“Acredito que o estilo de vida do interior fará muito bem ao pequeno Damon!” – comentou com satisfação, o agente social ao concluir o processo de adoção, requisitado por um abastado casal sem filhos de Little Town.

O agente social pediu que trouxessem Damon, e o apresentou aos pais adotivos.
Damon fitou o casal por um instante... e sorriu.



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Noite Maldita 4 - cap 5




Capítulo Penúltimo 

Irene não comentava nada com ninguém, nem mesmo com Gina, sua fiel amiga, mas não deixava de se lembrar do encontro com o estranho velho encapuzado e sobre o que ele lhe disse naquela ocasião. Não apenas se preocupava com o que poderia acontecer, mas com toda aquela conversa estranha.
O velho encapuzado mencionara as mortes do padre Glaxton e a de Bryan.

Irene não costumava pensar sobre aquele evento doloroso, quando perdeu o único homem que a fez feliz.

Com a morte de Bryan, não voltou a tentar batizar Damon, decidindo não seguir os costumes católicos do ex-marido, e deixar que Damon, quando tivesse idade suficiente, decidisse sobre batismo adulto.
No entanto, no fundo, Irene teve medo de que novamente algo de muito ruim voltasse a acontecer, caso o levasse de novo para ser batizado.
O choro de Damon na igreja, a morte do padre sobre o altar e a morte de Bryan no dia seguinte, no fundo, não lhe pareciam mera tragédia, uma peça de mau gosto do destino. Também não deixava de perceber que Damon sempre teve aversão à igrejas, especialmente católicas.

O velho encapuzado afirmara ter vindo de longe e falava com sotaque italiano. Ela sabia que Bryan havia vivido por algum tempo na Itália.

Ele também falara sobre “Maldição de Little Town” e sobre “O Sangue dos Lempkes”.

Certa noite, após conferir sua correspondência eletrônica, Irene acessou o site de buscas da Internet e digitou “Maldição de Little Town” na pesquisa, encontrando, para sua surpresa alguns resultados. Havia alguns sites sobre lendas urbanas que davam conta sobre uma “Maldição de Little Town”.

Os primeiros resultados que encontrou contavam que, na pequena cidade litorânea do interior, houve uma fazenda onde se encontra uma grande pedra, conhecida como “Pedra dos Escravos”, de onde, nos tempos da escravidão, escravos foram torturados e arremessados à morte. E que os espíritos desses escravos amaldiçoaram a região, exigindo, a cada treze anos, a morte de sete vítimas como sacrifício. Caso contrário, espalhariam mortes e tragédias pela região.

Alguns sites afirmavam que, com medo do que poderia acontecer a si próprios e às colheitas, os moradores da região entregavam a cada treze anos, sete vítimas, geralmente forasteiros, e em tempos remotos moças virgens da própria região, a um assassino possuído, uma espécie de “ungido maldito”, a quem cabia executar os sacrifícios, e assim, manter afastada a ira dos espíritos. Tal assassino não era escolhido aleatoriamente. Deveria ser um descendente direto do antigo feitor da fazenda.

Irene se lembrou de alguns desenhos estranhos feitos por Damon, que guardara. Apanhou-os em uma das gavetas da escrivaninha e verificou que um deles parecia ser o desenho de uma grande pedra, que tinha aos seus pés pessoas caídas e ensanguentadas. (um dos desenhos que Damon mostrou a Senhora Pritchard, sua primeira governanta).
Irene engoliu em seco ao constatar a parilidade do desenho com as histórias sobre a suposta maldição.

Os sites afirmavam que, apesar da maldição ser tida como apenas uma lenda urbana, o fato era que a cada treze anos aconteciam casos estranhos de assassinatos na região.

Irene resolveu tentar verificar a informação dos assassinatos que coincidiam com o intervalo de treze anos e pesquisou sobre “Assassinato em Little Town”.
Encontrou várias matérias sobre assassinatos na localidade, e estas, de fato, envolviam grupos de sete ou mais vítimas, com intervalos de treze anos.
Uma dessas notícias fez Irene gelar. Dava conta de que, trinta e oito anos atrás, um jovem de nome Bryan Lempke, após desertar do exercito e fugir do quartel, fora preso na região da antiga fazenda, acusado pela morte de sete vítimas, em sua maioria, jovens de fora da cidade.

Irene sempre soube que Bryan era ex-presidiário, mas nunca conversou a fundo com o marido sobre os motivos de sua prisão.

Ela, então, se lembrou da citação sobre descendência do antigo feitor e, abrindo outra gaveta apanhou os documentos do ex-marido, verificando ser “Anthony Lempke” o nome do pai de Bryan.

Ao pesquisar sobre “Anthony Lempke – Little Town – Assassinato” encontrou a informação de que “Tony Lempke estava entre oito pessoas encontradas mortas na fazenda onde trabalhou. Os registros davam conta de que a perícia concluiu que Tony Lempke havia assassinado sete pessoas de forma brutal e logo após cometeu suicídio”.

Apesar da aflição pelas descobertas, Irene seguiu com as pesquisas. Dessa vez experimentou: “Maldição de Little Town – Lempke”, encontrando o resultado mais intrigante de todos. Um artigo assinado por tal “Katie Duggenfield” (vide ‘Noite Maldita 2). A autora afirmava, para completa descrença dos visitantes da página, que ela própria escapara de ser assassinada como vítima do sacrífico maldito, vinte e cinco anos atrás. A autora afirmava também ter pesquisado a fundo sobre a Maldição de Little Town, e ter obtido informações através de pessoas ligadas ao misticismo e à região. Afirmava também a existência de uma seita secreta em torno da Maldição.
Segundo este artigo a origem da Maldição era mais complexa do que os primeiros resultados davam conta.

Nos tempos da antiga fazenda, um feitor, de nome “Richard Lempke” era conhecido por sua extrema maldade. Costumava, entre outros maus tratos, amarrar os escravos desobedientes no alto da Pedra, conhecida como “Pedra dos Escravos” deixando-os desfalecer ao sol. Numa noite os escravos armaram uma rebelião. Eles conseguiram capturar o Feitor, e o levaram para o alto da Pedra. Lá eles o assassinaram e festejaram com um grande banquete no topo da Pedra. Mas aconteceu que o espírito do Feitor fez um trato com o próprio Demônio. O feitor se tornou um demônio, o “Espírito Maldito de Little Town” e Satã agonizou de tal forma aos escravos durante o banquete, que estes enlouqueceram e saltaram da Pedra para a morte, dando assim ao Feitor a sua vingança.

Aflita, Irene fechou o notebook após ler este último artigo.
Tudo o que lera lhe parecia demasiadamente absurdo e impossível de ser verdade.
Lembrou-se de que o velho encapuzado mencionara “sentinelas”. Estaria falando de membros de uma seita? Irene teve a impressão de que, o homem que a socorreu, livrando-a do encapuzado, o teria matado, não fosse à intervenção policial. Seria o homem que a socorreu um “sentinela” e membro de uma seita secreta?
O velho também havia dito “Nós nos enganamos quando pensamos que a maldição de Little Town estava extinta”. Quem seria esse “nós”, o velho se referia a si próprio e a um grupo de pessoas, se referiria também a Bryan? Seria a razão de Bryan ter vivido sem ter filhos até se casar com ela, o medo de uma maldição? Teria tido um filho com ela por crer na extinção dessa maldição? Todas as respostas pareciam ser afirmativas para Irene. E Damon seria, portanto, o único e direto descendente do feitor da antiga fazenda, a criança cuja vida seria a garantia da continuidade de uma terrível maldição, destinado a ser o assassino maldito.

Irene foi até o quarto de Damon, e da porta o observou dormindo tranquilamente. Em seu coração, Irene temia que membros da tal seita secreta de Little Town, intentassem sequestrar-lhe e tomar-lhe o filho. Voltou a fechar a porta do quarto de Damon e, ao se virar, deu de cara com Melinda de pé, que lhe fitava.  Irene se assustou com a jovem e levou a mão ao peito pelo susto.

“Acordada a essa hora Senhora Lempke?” – perguntou Melinda.

“Eu estava respondendo meus e-mails e acabei me demorando mais do que pretendia” – respondeu Irene – “Você, Melinda?”.

“Levantei-me para beber água” – respondeu a jovem governanta.

“A proposito, você é do interior, não é, Melinda?”

A governanta assentiu positivamente.

“De que local exatamente?” – quis saber Irene.

“Região litorânea, ao sul, Senhora” – respondeu Melinda.

“Little Town?”.

“Próximo” – respondeu a governanta.

Irene teve certeza de que se tratava exatamente de Little Town.


Continua...


terça-feira, 24 de junho de 2014

Noite Maldita 4 - cap 4




Capítulo Quatro

Algumas semanas depois...

– “Senhora Lempke, eu poderia dormir aqui, se a senhora quiser. Creio que poderia, assim, auxiliar mais com o Damon” – Melinda disse à Irene, quando estava para ir, após o dia de serviço.

– “Não tomaria todo o seu tempo? Digo, você é jovem e...” – dizia Irene.

Melinda sorriu e, interrompendo, disse:

– “Não tenho tempo para namorados e coisas assim, Senhora Lempke. Nesse momento da minha vida estou mais interessada em economizar. Tenho poucos pertences, que poderiam caber em qualquer canto. E se eu não precisar mais pagar pelo quarto onde estou morando...”.

Irene entendeu que a moça pensava no futuro. E Damon aceitava muito bem a companhia de Melinda. Além de que, de fato, seria ótimo ter a jovem auxiliando em tempo integral.

– “Bem, tenho um quartinho de empregada, não é muito grande, você sabe, se ele estiver bom para você...” – respondia Irene.

– “É perfeito para mim, Senhora Lempke”.

– “Bem, então, quando vier amanhã pode trazer as suas coisas. Mas faço questão de aumentar seu ordenado pelo tempo integral!”.

– “Muito agradecida, Senhora Lempke” – Melinda respondeu, e em seguida despediu-se de Damon.

***

Algum tempo depois, Irene se lembrou de que havia convidado Gina e seu namorado, Ray para o almoço do dia seguinte.

– “Oi, Gina, Você pode ficar um segundinho com o Damon... Eu me esqueci de passar no mercado para comprar as coisas para o almoço de amanhã, e a Melinda já foi faz algum tempo... Pela manhã o horário ficaria apertado...” – disse Irene, ao ser atendida pela amiga e vizinha de andar.

– “Claro que posso ficar com Damon! Mas eu poderia ir ao mercado e comprar o que você queira para o nosso almoço amanhã!” – Gina respondeu, interrompendo.

– “Não! Faço questão de comprar, e é bom que posso escolher pessoalmente! Sabe, vai ser mesmo bom poder ter a Melinda em tempo integral aqui!”

– “A Melinda vai morar aqui? Isso vai ser ótimo pra você e o Damon...”.

– “Vai sim! Mas deixa eu ir logo, amiga, preciso pegar o mercado ainda aberto! Já volto!”.

Irene foi a pé ao mercado, afinal era muito mais simples do que pegar o carro na garagem do prédio, já que eram apenas algumas quadras.

Quando estava voltando com as compras, ao passar por um trecho pouco movimentado, percebeu que a estranha figura, com roupas que lembravam as vestes de um monge e que tantas vezes vira, a estava seguindo.

Primeiro apertou os passos, em seguida começou a correr. Mas o homem a alcançou, próximo à entrada de um beco.
Ele a segurou e começou a dizer coisas estranhas, com sotaque italiano.

– “Você precisa me ouvir, Irene! Damon não é uma criança! Ele é o espírito de uma maldição! Ele precisa ser detido, caso contrário instaurará o horror!”.

– “Por favor, me solte!” – dizia Irene em pânico.

– “Há sentinelas! Não pude falar com você de outra forma! Eles estão vigiando! Precisa escutar! Damon provocou a morte do pai, e também a morte de Glaxton! Eu vim de muito longe, eu demorei a ter certeza de que era você a esposa de Bryan! Nós nos enganamos quando pensamos que a maldição de Little Town estava extinta! Ele precisa do sangue dos Lempkes! Estamos perto de completar treze anos desde a última Noite Maldita!”.

Irene estava apavorada. Ele sabia seu nome, o nome do seu filho e de seu ex-marido, falava sobre Little Town, cidade de Bryan.

Um homem apareceu e agarrou o velho estranho.

– “Solte-a!”- gritou o homem para o velho, acertando-lhe um murro no estomago.

O homem segurou o velho com uma das mãos e levou a outra dentro do casaco, como quem fosse sacar uma arma, um revolver, talvez uma faca. E estava prestes a arrastar o velho para o beco, quando um policial apareceu intervindo na situação.

“Ei, ei, ei! O que está havendo aqui?” – perguntou o policial.

O homem, então, soltou o velho e disse ao policial: “Este louco estava atacando a esta senhora”.

– “Está tudo bem com a senhora?” – o policial se dirigiu à Irene.

– “Sim, senhor!”.

– “Grato pela sua intervenção, cidadão, antes que algo acontecesse à senhora. Agora deixe o trabalho da polícia para a polícia”. – o policial disse se dirigindo ao homem.

O homem pareceu contrariado em deixar que o policial lidasse com o velho. Disfarçadamente tirou a mão de dentro do casaco. E deixou o local, antes que o policial quisesse saber mais sobre ele. Foi embora sem tornar a olhar para Irene.

– “A senhora está bem mesmo? Precisa de algo?” – o policial insistiu com Irene.

–“Tudo bem comigo! Não preciso! Obrigada, policial!” – Irene respondeu e voltou para casa.

Enquanto voltava para casa Irene tentava se lembrar de onde conhecia o nome “Glaxton”, que o estranho velho mencionou. Ela se lembrou. Era o nome do padre que batizaria Damon. Irene também tinha a estranha sensação de que o homem que apareceu e agarrou o velho não lhe era completamente estranho! Mas onde, onde o teria visto antes, de onde se lembraria dele?

***

Quando viu Irene entrando, Gina se levantou depressa espantada com a expressão da amiga e o modo como ela estava ao entrar em casa.

– “Meu Deus, Irene! Você está pálida! E ofegante! Aconteceu alguma coisa?”.

Com uma mão no peito e controlando a respiração agitada, Irene respondeu sussurrado para a amiga:

“Eu fui atacada! Na hora um cara apareceu e me livrou dele. Depois te conto. Como está o Damon?”

Damon veio do quarto e perguntou à Irene:

– “Aconteceu alguma coisa, mamãe?”.

Irene o abraçou, e beijou-lhe a cabeça.

– “A mamãe só demorou um pouco, meu filho!”.

***

No dia seguinte, enquanto Melinda estava com Damon no quarto do garoto, Irene contou sobre o ocorrido à Gina, enquanto elas preparavam o almoço.

Gina se impressionava com o relato.

– “Que loucura, Irene!”.
– “E você achava que eu estava tendo visões e precisava ir ao psicólogo!”.
– “E que coisas estranhas ele disse?”.
– “Coisas estranhas demais. O que me assusta é que Damon possa correr algum perigo!”.
– “Nossa, agora estou me lembrando! Enquanto você estava fora ontem, teve uma hora em que Damon, de repente, parou de desenhar e disse que você estava demorando demais e que alguma coisa estava acontecendo! Eu lhe disse que você só deveria estar demorando nas compras!”.

***

Algum tempo depois, à hora marcada, Ray chegava para o almoço. Sendo recebido por Gina e Irene, que disse à Melinda para vir com Damon, para apresenta-lo ao namorado da amiga.

– “Damon, este é Ray, namorado da tia Gina” – disse Irene ao filho.

Ray se ajoelhou em frente a Damon e conversou com o garoto.

– “Prazer em conhecê-lo, Damon!”.

– “Prazer, Ray. O senhor trabalha com segurança, não é?” – Damon disse a Ray.

Gina comentou com Irene: “Tá vendo como as crianças são espertas? Damon prestou a atenção quando te contei que Ray trabalha como segurança!”.

Ray sorriu para Gina e Irene, como quem se divertisse com o garoto. Então, voltando-se a Damon, respondeu:

– “Sim, senhor Damon, eu trabalho como segurança”.

– “Sentinelas precisam ser muito, muito atentos em seu trabalho. Pequenas falhas na segurança podem trazer muitos problemas!” – Damon respondeu em tom sério.

Os adultos se divertiram com a esperteza do menino.


Continua...


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Noite Maldita 4 - cap 3




Capítulo Três

Alguns dias depois...

– “Damon, esta é a Senhora Pritchard. Ela tomará conta de você, enquanto a mamãe estiver fora trabalhando. Ela também será sua nova professora” – Irene apresentou ao filho a governanta. Senhora Pritchard era uma professora aposentada e tinha licença para lecionar em casa.

Damon voltou seu olhar para a senhora grisalha, de coque e casaco pesado, que segurava uma pasta à frente com ambas as mãos.

– “Cumprimente a Senhora Pritchard, meu filho” – disse a mãe.

Damon permaneceu calado, seu olhar, no entanto era penetrante, como se pudesse ver a alma da senhora. A senhora sentiu um frio lhe subir pela coluna. A expressão de Damon não se alterou, e depois de mirar a senhora, voltou a desenhar.

– “Não repare, Senhora Pritchard, ele às vezes demora um pouco a se acostumar com pessoas novas” – Irene, sem jeito, procurou justificar.
– “Tudo bem, sem problemas, Senhora Lempke, logo Damon e eu nos daremos bem!” – respondeu a senhora.
– “Me chame de Irene, sem ‘senhora’! Venha, vou lhe apresentar minha vizinha, a Gina, qualquer coisa, além de me telefonar, a senhora pode chama-la, ela mora logo aqui ao lado!”.

***

Damon continuou fechado à Senhora Pritchard. Após duas semanas, numa tarde, perto do horário da Senhora encerrar seu expediente, ela se aproximou de Damon, que desenhava e tentou melhorar seu relacionamento com o menino.

– “O que está desenhando, Damon?” – a governanta perguntou.
– “É uma fazenda, Senhora Pritchard” – o menino respondeu mostrando o desenho.
– “Poxa, que bacana! É a fazenda que você quer ter?”.
– “Eu não quero ter, Senhora Pritchard, eu a tenho, é minha”.
– “Sim, claro! E o que é isso aqui?” – a senhora perguntou apontando para o desenho.
– “É uma pedra muito grande!”.
– “E isso aqui perto da pedra?”.
– “São pessoas mortas, Senhora Pritchard, não é fácil manter uma fazenda, às vezes é preciso algum sacrifício”.

A senhora estranhou muito o desenho e o que o menino dizia e o tom em que dizia.

– “Eu fiz esse desenho para a senhora, Senhora Pritchard” – Damon disse entregando outra folha que guardava à governanta.
A Senhora Pritchard sentiu um medo intenso ao segurar a folha, e estranhou muito o desenho.

– “Er... O que é exatamente, Damon” – perguntou engasgando.
– “Não está claro? Aqui é um ônibus” – o menino respondeu apontando sua ilustração.
– “Sim... Mas... e isso aqui... também é uma pessoa morta?” – a governanta perguntou sobre o desenho de uma mulher caída.
– “Esta é a senhora, Senhora Pritchard. Aqui está sua pasta, e aqui sangue saindo da sua cabeça”. – Damon respondeu apontando os detalhes do desenho.

A governanta deixou a folha sobre a mesa e deu passos para trás, entrando em pânico. Olhou por um instante para o menino, que permanecia sentado à mesa com a mesma expressão serena com que conversava com a governanta. Não eram apenas os desenhos e o que Damon dizia. A senhora sentia que Damon não era uma criança comum.

Em pânico a Senhora Pritchard, apanhou suas coisas e correu para a porta do apartamento de Gina.

– “Olha, você pode olhar o Damon por meia hora? Eu preciso ir mais cedo hoje! Depois eu falo com a senhora Lempke!” – Pritchard disse apressada à Gina, assim que esta abriu a porta.
– “Posso, mas não pode esperar dez minutos, estou com algo no fogo...” – disse Gina, sendo interrompida.
– “Eu preciso ir agora, ele está desenhando, adeus!” – respondeu a governanta e desceu apressada as escadas.

Gina se admirou e viu Pritchard descer o primeiro lance de escadas. Segurando uma colher de pau e preocupada com o fogão, Gina berrou para o lado do apartamento de Irene: “Damon, a tia Gina já vai, só vou tirar a panela do fogo!”.

Damon da janela observa a Senhora Pritchard cruzar apressada a rua. No meio da travessia sua pasta caiu, e a senhora instintivamente abaixou no meio da via para apanhar a pasta. Um breve instante, o suficiente para que um ônibus não fosse capaz de evitar apanhá-la em cheio.
Da janela, Damon assistiu à senhora Pritchard paralisada ao se levantar e gritar com os olhos esbugalhados, olhando para o ônibus, cuja freada soou alto. O impacto arremessou a governanta ao asfalto, fazendo-a bater forte com a cabeça, e morrer instantaneamente por traumatismo craniano.
Da janela, Damon sorriu satisfeito.

No instante seguinte, Gina entrou na casa de Irene, viu Damon à janela, e ouviu o barulho vindo da rua.

– “O que está fazendo aí, Damon?”.
– “Tem alguma coisa acontecendo, tia Gina, estou tentando ver o que é!”.

Ao chegar à janela, ela vê o ocorrido, reconhecendo a Senhora Pritchard. Imediatamente cobriu os olhos do menino, afastando-o da janela, e o abraçando.

– “Não olhe para isso, Damon” – disse, preocupada com a possibilidade do garoto se traumatizar ao ver um acidente com alguém de seu convívio, que acabara de deixar sua casa.

***

A agência providenciou imediatamente uma substituta. Uma jovem de nome Melinda, vinda do interior, recentemente pós-graduada, com muito boas indicações da universidade.

– “Damon, meu filho, se lembra de que lhe disse que a Senhora Pritchard não poderá mais vir ficar com você? Esta é a Senhorita Marinville! Ela ficará com você e será sua nova professora!” – disse Irene, apresentando a nova governanta ao filho.

Damon olhou para a jovem, que sorria simpaticamente. Ele a fitou por alguns segundos, então lhe sorriu de volta. O que surpreendeu Irene.

– “Vejo, que você simpatizou com a Senhorita Marinville!” – Irene comentou satisfeita.
– “Estou muito honrada em estar aqui para tomar conta de você!” – Melinda disse ao menino.

Damon assentiu com a cabeça e voltou a desenhar.


Continua...

terça-feira, 3 de junho de 2014

Noite Maldita 4 - cap 2




Capítulo Dois

Alguns anos depois...

–“Espero que a senhora entenda, Sr.ª Lempke, Damon não está apto a frequentar esta escola”.
– “Mas, Sr.ª Beaumont...”
– “Entenda, por favor, que esta decisão está fundamentada no fato dele ter uma agressividade muito grande para um menino de nove anos”.
– “Sr.ª Beaumont, a escola não está exagerando por um caso normal de uma briga entre crianças?”.
– “A criança em que Damon bateu está hospitalizada em estado grave, Sr.ª Lempke. Acreditamos que Damon necessita de acompanhamento especial, com o qual não contamos nessa escola”.

A expressão de Irene se tornou surpresa ao saber da gravidade da agressão de Damon ao outro aluno.

A diretora continuou: – “A professora deles nos relatou que Damon justificou a agressão dizendo que o menino, agredido por ele, “não passava de um escravo imundo”. Diga-me Sr.ª Lempke, Damon está exposto a algum tipo de influencia racista?”.

Irene se sentiu perplexa e constrangida. Afinal, ela abominava preconceitos e jamais permitira qualquer influencia do tipo ao pequeno Damon. E a situação fazia parecer que ela implantasse pensamentos dessa natureza no filho.

– “Eu não entendo como ele possa ter dito algo assim, Sr.ª Beaumont. Não terá sido algo que ouviu dos coleguinhas? Eu não crio meu filho dessa forma”.
– “Bem, Sr.ª Lempke, aqui estão todos os papeis” – a diretora disse esticando os papeis sobre a mesa para Irene. – “Aconselho que procure um tratamento psicólogo para o menino, para tratar da questão da agressividade e comportamento ou uma escola que disponha de recursos para tanto. Sentimos muito, esperamos e temos certeza de que Damon ficará bem com acompanhamento adequado. Ele é, afinal, apenas um menino de nove anos de idade. Boa sorte!”.

Dizendo isto, a diretora se despediu de Irene.
Uma jovem, fiscal de corredor, chegou à sala da diretoria, conduzindo Damon, que segurava sua pasta com seu material escolar.

“Vamos, filho, vamos para casa. Em casa vamos precisar conversar sobre algumas coisas” – Irene disse colocando a mão sobre o ombro do filho e deixou o prédio da escola.

No estacionamento do colégio, Irene colocou Damon no banco de trás de seu carro, e tomou o acento de motorista. Quando estava prestes a dar a partida, ela vê, pelo espelho retrovisor central, uma figura se aproximar. Um homem velho que vestia um manto, como os mantos dos monges.
Aflita, Irene deu partida apressadamente, e deixou o estacionamento o mais rápido que pode.
Alguns metros adiante, olhou para o banco de trás, preocupada em ver se Damon havia avistado o estranho homem. Damon parecia tranquilo e alheio ao fato.

***

Em casa, Irene contou sobre a reunião com a diretora da escola e tudo o que fora conversado para Gina, sua vizinha do apartamento ao lado.

– “Sabe o que poderia ser bom? Dessas pessoas que são tipo babás, mas que também dão aula pra criança, sabe? Como ‘a gente chique’ costuma ter!” – disse Gina.
– “Sei, sim” – respondeu Irene, se servindo uma xícara de café.

Irene pensou sobre se deveria compartilhar com a amiga sobre o estranho homem de manto. Depois de vacilar um pouco, disse em tom de voz bem baixo, para que Damon não escutasse do quarto:

– “Tem algo muito estranho acontecendo comigo, e estou com medo do que possa ser”.
– “Algo grave? O que é?” – Gina questionou, seguindo a conversa em tom baixo, sussurrado.
– “Várias vezes eu vi um homem muito estranho, parece que ele tem me seguido e vigiado”.
– “Como assim? Como ele é?”.
– “Ele... usa um manto, parece um monge católico, aparenta uns setenta anos...”
– “Um monge?” – Gina estranhou.
– “Eu já o vi próximo ao meu trabalho, já o vi perto do nosso prédio... E hoje ele estava no estacionamento da escola, digo, ex-escola do Damon”.
– “Ai, isso é muito estranho! Tem certeza?”.
– “Claro que tenho!”.

Gina pensou um pouco sobre o assunto e disse:

– “Será que não é imaginação, digo, você pode projetar essa imagem. Tipo, você o vê, mas ele não existe! Eu sei dessas coisas, tem muita coisa assim... Eu escuto um quadro no rádio com um psicólogo que responde cartas de ouvintes e fico sabendo muito sobre esse tipo de coisa! Pode ser algo que sua mente criou depois...”.

Gina se deteve por pudor a tocar na forma como Irene perdera o marido, mas já havia começado a falar, então continuou:

“Er... depois da experiência traumática que você viveu! Quando você for procurar um psicólogo para o Damon, poderia marcar consulta pra você também!”.

Irene decidiu que conversar sobre isso com Gina, não ajudaria em nada e cessou o assunto. Damon poderia ouvir e ficar assustado.
Gina entendeu que Irene cessou a conversa por se lembrar de Bryan, e resolveu falar de outra coisa:

– “Mudando de assunto... Sabe o Ray, de quem te falei? Você vai conhecê-lo em breve, amiga! A gente resolveu assim, se juntar, sabe?” – Gina comentava entusiasmada.
– “Não acha muito rápido, Gina?”.
– “Que nada, amiga! E eu já venho a bom tempo encalhada, você sabe! E ele é um tipão: grande e robusto, como eu gosto! Ai! Além de tudo, muito diferente dos crápulas com que me envolvi nos últimos tempos!”
– “Se você acha que está tudo bem!”.
– “Você não o conhece, ele é muito amoroso, cavalheiro, um tipo de homem que não se encontra mais no mercado! Deve ser por vir do interior! Aqui, nessa cidade... não tem mais homem assim, Irene! A gente não pode bobear, vou é agarrá-lo antes que umazinha qualquer o roube de mim! E ele está gostando sinceramente de mim! Eu sei pelo modo que me trata!”.

Irene parecia distante, enquanto a amiga falava do namorado.
Gina, notando esse distanciamento diz, enquanto mastiga uma torrada com geleia:

“Hmmm! Você não pensa em conhecer outra pessoa? Digo, desde que...” – Gina se deteve com receio de mencionar Bryan por uma segunda vez, mas já havia começado a falar, então continuou – “Er... Desde o Bryan”.

Irene se sentou à mesa e, cortando um pedaço da broa, disse:

– “Não, não saberia viver com outro depois do Bryan. E... Damon agora é ‘o homem da minha vida’, além de ser uma parte do Bryan, que ele deixou comigo”.
– “Você está preocupada com o Damon, não é?”.
– “Sim” – Irene respondia, olhando para o café na xícara “E até se resolver essa questão, devo ter que faltar ao trabalho, sem o Damon na escola...”.
– “Eu posso ficar aqui nos primeiros dias e olhar o Damon para você, enquanto você trabalha. Não me daria trabalho nenhum e...”.

Damon apareceu na porta da cozinha

– “Ei, olha ele aí!” – disse Gina, que em seguida cumprimentou o filho da amiga:
– “Oi, Damon!”.
– “Oi, Gina” – Damon respondeu.
– “Chame-a de ‘Tia Gina’, meu filho! Diga, Damon, você gostaria que a Tia Gina te olhe enquanto a mamãe vai trabalhar nos próximos dias?” – disse Irene.

Damon permaneceu sem responder, olhando para amiga da mãe.

– “Nós vamos nos dar super bem” – Gina disse, enquanto levava a mão para mexer no cabelo de Damon, mas não o fez pelo modo que o menino a olhava.
– “Tudo bem! Er... Damon, o que você pensa em ser quando crescer?” – Gina diz, tentando puxar conversa com o menino.
– “Eu vou ser dono de uma fazenda muito grande, e possuir toda a região em torno dela” – Damon respondeu.

Elas sorriram pela resposta de Damon.


Continua...


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Noite Maldita 4 - cap 1



Em “Noite Maldita”, um grupo de jovens viaja em busca de um final de semana divertido, mas acabam tendo que passar a noite em uma fazenda, onde são vítimas da crença sobre uma antiga maldição local.

Em “Noite Maldita 2”, treze anos após os acontecimentos do primeiro episódio, a região a antiga fazenda se tornou um condomínio. As antigas crenças locais são desconhecidas da maioria da nova população que se formou ao longo de uma década... Mas logo um novo grupo de jovens será vítima do terror.

Em “Noite Maldita 3”, novamente se cumpre o ciclo dos treze anos, mas esta é uma noite decisiva, pois se trata da décima terceira noite maldita, o que traz a possibilidade do espírito maldito ser capaz de vir definitivamente para o mundo físico. Aqueles que lutam contra a maldição tentarão detê-lo e finalmente extinguir a maldição.

Esses três contos formaram a primeira trilogia “Noite Maldita”. Que eu amei escrever e trazer aqui para o blog, e espero que tenha deixado alguma saudade! Tivemos uma terrível maldição, um temido assassino, vilões pagando por suas maldades, mocinhas que se salvaram no último momento... Agora as “Histórias de Terror Assustador que dão Medo” trazem o quarto conto Noite Maldita.

Em “Noite Maldita 4”, que te convido a acompanhar a partir deste post, a maldição que se julgou extinta retornará. O Espírito Maldito retornou do Inferno e está em nosso mundo.

O Álbum “Born Again” de “Black Sabbath” é a “trilha sonora oficial” de “Noite Maldita 4 – O Retorno do Mal”. 

...beijinhos***

Noite Maldita 4 - O Retorno do Mal


Capítulo Um

Uma multidão se amontoava em frente à “Igreja Velha”, a Igreja de N. Sr.ª da Guia. Padre Glaxton, pároco a cinquenta anos da mais antiga Igreja da cidade de Little Town, morrera subitamente no altar.

A notícia se espalhou rapidamente, como costuma acontecer em cidades pequenas, gerando instantaneamente a presença da multidão. Apesar da avançada idade, a morte do padre, pela forma repentina e as circunstancias em que aconteceu, surpreendeu e chocou a população. No entanto havia entre a multidão alguns que secretamente se regozijavam pela morte do pároco. Na verdade alguns dos presentes à missa, lá estavam para assistir aos fatos que estavam já previstos para aquela fatídica manhã de domingo. A morte de Glaxton, no entanto, os interessava menos do que a possibilidade de contemplar a criança que fora levada para receber o batismo. 

Inserida na missa haveria a celebração de batizado da criança do sexo masculino levada pelo casal Bryan e Irene Lempke. O batismo havia se iniciado conforme a liturgia.

Que nome escolhestes para o vosso filho? 
Damon – respondeu o casal Lempke
Que pedis à Igreja de Deus para Damon? 
O Batismo – responderam os pais

Quando Pe. Glaxton rezou a oração de exorcismo e unção pré-batismal, proferindo as palavras “para expulsar de nós o poder de Satanás, espírito do mal, e transferir o homem, arrebatado às trevas, para o reino admirável da vossa luz...”, a criança começou a chorar de forma compulsiva no colo da mãe.

Pe. Glaxton orou a Monição e o diácono se aproximou com a bacia batismal para a Benção e Invocação sobre a água. Quando Glaxton olhou para a bacia pareceu ter visto algo na água. Algo que o emudecera e o apavorara de forma muito intensa. Algo capaz de levá-lo a um estado de pânico que seu coração não foi capaz de suportar. Com os olhos fixos na bacia o padre sentiu o peito e lhe faltou o ar. Com os olhos esbugalhados e parecendo lutar para dizer algo, Glaxton desabou morto sobre o presbitério. 

Bryan Lempke gritou um longo e doloroso “Não!”, e correu abraçando o corpo do padre. Iniciou-se assim o caos e consternação na Igreja Velha.

– Glaxton fora o padre de Bryan quando este frequentou a igreja para a catequese e nos momentos mais angustiantes da sua vida adulta, Glaxton fora um grande amigo e aliado. Por estas razões que o casal, residentes de uma cidade longe dali, voltavam a Little Town. Bryan desejava que fosse Glaxton quem batizasse seu filho e Irene atenderia com gosto ao desejo do amado marido. O que Irene nunca fora capaz de imaginar é que vivenciaria naquela região os piores momentos de sua vida.

***

O casal convidado para padrinhos por Bryan e Irene deixaram Little Town. Bryan Irene e o pequeno Damon Lempke passaram aquela noite em um hotel da cidade e na tarde do dia seguinte compareceram ao enterro do corpo de Pe. Glaxton. De forma silenciosa e penosa, Bryan assistiu ao sepultamento. Após o funeral o casal pegou imediatamente a estrada de volta para a casa. 

Alguns quilômetros após deixar o lugarejo, ainda dentro dos limites municipais de Little Town o carro do casal começou a falhar e parou na estrada. 
Bryan desceu para olhar o motor e ergueu o capô. Irene permaneceu dentro do carro, no banco de trás. O bebê em seu colo parecia observar com atenção a estrada. 
Bryan procurava pela causa do problema, quando um caminhão velho ultrapassou o carro parado à beira da estrada. O caminhão levava uma pesada carga de lâminas de metal e uma delas se desprendeu no momento seguinte à ultrapassagem. A lâmina cortou o ar emitindo um assobio sombrio, que fez Bryan se erguer e voltar o olhar adiante. Bryan não teve tempo sequer de compreender o que estava acontecendo quando a pesada lâmina foi de encontro a ele, decapitando-lhe com a ferocidade de uma foice.

É impossível descrever o horror sofrido por Irene, que do banco de trás do carro se dava conta do ocorrido ao ver a cabeça do marido rolar vários metros pelo asfalto quente até parar a meio metro fora da estrada, imunda de sangue e da terra à beira da estrada. 

Irene gritava e se desesperava de dentro do carro, enquanto o pequeno Damon voltava a dormir, como se os gritos de dor e desespero da mãe fossem para ele uma canção de ninar. 

O motorista do caminhão chegou correndo. Parara alguns metros adiante, por perceber que algo voara de sua carroceria. O caminhoneiro levou as mãos à cabeça, incrédulo ao ver o corpo decapitado caído e a cabeça mais adiante. Enquanto Irene descia do carro para permanecer de pé, com o filho no colo, encostada, em choque, na lateral do carro. O caminhoneiro sem saber o que dizer, trazia, pelos cabelos, a cabeça decapitada e a colocava junto ao corpo, voltou ao caminhão para apanhar um cobertor e, voltando, cobriu o corpo e a cabeça de Bryan.

Um carro de cor preta, que vinha no sentido de quem deixava Little Town, parou. Seu motorista desceu e ofereceu ajuda à viúva. Oferecendo-se para chamar a ambulância, o reboque e para conduzi-la aonde quer que fosse. Mas como o motorista parecia olhar exageradamente para o bebê, Irene esperou pela ambulância, mas recusou a carona, segurando fortemente o filho contra o peito. O caminhoneiro tirou o boné e o segurou com as mãos permanecendo em silêncio ao lado de Irene até a chegada da ambulância e o motorista do carro preto voltou ao seu veículo e os deixou.

– Antes de conhecer Bryan Lempke, os quase quarenta anos de vida de Irene foram uma sucessão de decepções amorosas. Quando era adolescente, Irene sonhava em conseguir fisgar algum quarterback do campeonato universitário de futebol americano, aos vinte e poucos sonhava com os tipos intelectuais, e a partir dos trinta, tudo o que desejava era “um marido”, alguém que lhe tratasse bem. E Bryan era tudo isso ao mesmo tempo, tinha o porte de um quarterback, um ar misterioso e místico, que para ela era a atmosfera de um intelectual e fora, nos anos que viveram juntos até aquele momento horrível, um marido muito carinhoso, que despertava a inveja das antigas amigas dos tempos de escola, que na época foram populares entre os garotos e hoje viviam dias muito menos glamorosos. Talvez por tudo isso seja que Irene não se importasse muito que Bryan não costumasse contar sobre sua vida antes de se conhecerem. Sem saber, no entanto, que esse passado de Bryan, que vivera sob uma terrível maldição, que ele julgava ter sido extinta, estava profundamente ligado ao horror que ela agora vivia, e que, em alguns anos traria a morte para ela própria. 


Continua...