sábado, 22 de novembro de 2014

Estranho e Extraordinário



Cidade dos Mortos


João Silva, natural de Caruaru (PE), trabalhava há 15 anos como motorista de caminhão pelo interior do Ceará. Ele conhecia aquelas velas estradas poeirentas como a palma da mão. Com a segurança de sempre, iniciou mais uma longa viagem na tardinha de um dia quente. Anoiteceu, mas ele sabia que antes das 11 horas da noite chegaria a uma pequena cidade onde poderia dormir.
A viagem transcorria sem novidades, até que viu algumas luzes alinhadas ao longo da estrada, antes do tempo previsto. Era uma cidade, mas ele não a conhecia. Ficou desconfiado: teria errado o caminho? Estaria perdido? Curioso, tocou o caminhão em frente. Ao entrar na cidade, João Silva diminuiu a marcha e começou a observar. As luzes que tinha visto de longe quase não iluminavam: eram tochas de chama azul arroxeada. As casas eram todas brancas e – além delas – não existiam bares, hotéis ou armazéns. Nenhuma placa indicativa. Nem pessoas nas ruas. Das casas, não vinha luz alguma. De repente, ele percebeu que a cidade não era real.
Com um gesto brusco acelerou o caminhão, mudou a marcha, mãos firmes no volante. Mas por mais que tentasse imprimir velocidade ao caminhão, este não reagia. Sentiu que uma forte ventania em sentido contrário o segurava, fazendo o veículo avançar muito devagar. Viu montes de capim seco rolarem ao vento pelas ruas da cidade morta. Seu maior desejo era sair dali, mas seus músculos estavam paralisados. Foi quando surgiu uma luz real à sua frente. Percebeu que tinha abandonado a cidade-fantasma e se aproximava, agora, a  grande velocidade, de um posto de gasolina. Encostou na beira da estrada e desmaiou. Foi socorrido imediatamente pelos demais motoristas que estavam por ali. Permaneceu sem sentidos um bom tempo e, ao acordar, contou o que tinha acontecido. Os homens ouviram atentamente, com muito respeito. Depois, em conversa, ele ficou sabendo que não tinha sido o único a conhecer aquele lugar maldito. Muitos já passaram pela cidade dos mortos.

Extraído de Revista Planeta, fevereiro de 1974.

sábado, 15 de novembro de 2014

Histórias Bizarras, Sinistras, Macabras


A seguinte história foi publicada na coluna “Conexão” do jornal carioca “Expresso” em 29 de janeiro de 2014.




Internado em um hospital militar com problemas estomacais graves, “M.”, um militar reformado, passou a ser tomado, no sono, por uma leve sensação de prazer: eram sonhos em que vivia uma relação sexual com uma antiga colega de trabalho por quem nutriu paixão no passado. 
Com o passar dos dias de sua longa internação, os sonhos foram crescendo e as relações virtuais também. A ponto de acordar ofegante, quase sem nenhuma energia no corpo.
Quanto mais se sentia cansado, mais intensos eram os sonhos e o desejo de sonhar. Mas com o tempo a fisionomia da mulher se modificava durante a tal relação sexual virtual.
Certa noite, no meio daquela que seria mais uma explosiva relação, “M.” acordou com a figura de uma mulher bela, mas de olhar sinistro, chifre e asas sobre si. Sem voz para gritar, “M.” acredita ter desmaiado.
Ao relatar o caso ao seu médico de confiança, o profissional o alertou de que não era o primeiro a falar de algo semelhante naquele hospital.
Hoje espiritualista, “M.” acredita que sua paixão reprimida e fragilidade física permitiram o ataque de um Succubu – um demoníaco feminino que explora a energia sexual. A ação de succubus, segundo a crença, pode inclusive levar à morte física.

sábado, 8 de novembro de 2014

Histórias de Terror Assustador - Milho do Diabo


A seguinte história é conhecida no interior de São Paulo...




O Milho do Diabo


Em um rincão do interior do estado de São Paulo há um milharal muito bonito do qual ninguém consegue se aproximar.
E mesmo que a plantação não receba cuidados, ela cresce próspera.

Se alguém se aproxima desse milharal durante o dia é atacado por marimbondos e vespas. Se a tentativa se dá à noite, a pessoa é golpeada com tapas na cabeça, sem que lhe seja possível identificar por quem os golpes são desferidos.

Conta-se que muitos anos atrás um lavrador, de nome Simeão, acumulara uma dívida muito grande. Para quitá-la decidiu vender seu pequeno campo, que media um carro* de milho.

* A unidade segundo a qual se mede a colheita e a venda de milho é o “carro”.

Mas como sua dívida excedia em muito o valor do carro de milho na época, o valor pedido por Simeão era acima do que qualquer um estaria disposto a pagar. Mas Simeão, que via na venda do milho a única saída para quitar a dívida, não cedia no valor.

“Pois eu ei de vender meu carro de milho por este preço, nem que seja para o Diabo, eu ei de vendê-lo a esse valor!” – exclamava Simeão.

Um dia um homem, vestido todo de branco, com um grande chapéu, e montado em um burrinho chamou à porta do casebre de Simeão e perguntou pelo milharal. Ao saber do valor pedido pelo lavrador o homem vestido de branco disse:

– “O preço está alto”.
– “É esse o preço, nem que eu tenha que vendê-lo ao Diabo” – disse Simeão.
– “Pois este sou eu, sou o Diabo e compro seu milho” – respondeu o homem montado no burrinho, e pagou ao lavrador a quantia pedida.

Muito feliz com a venda do milharal, Simeão foi à cidade, e lá quitou todas as dívidas. Ao retornar para casa a esposa lhe questionou sobre aonde teria ido, e Simeão contou-lhe que havia vendido o milharal e com o dinheiro pagara todas as dívidas.

– “Não acredito que você encontrou alguém disposto a pagar o preço que você estava pedindo!” – disse a esposa.
– “Pois eu não disse que venderia, mesmo que fosse para o Diabo? Pois bem, veio aqui um homem que disse ser o próprio e comprou-me o milharal”.

Quando a esposa foi apanhar as roupas de Simeão para lavar, sentiu que havia algo no bolso da calça. Meteu a mão e lá estava a mesma quantia em dinheiro que o marido recebera do homem vestido de branco. E toda vez que o lavrador gastava o dinheiro, a quantia voltava a aparecer no bolso da calça, de forma que este nunca mais voltou a ter problemas com dinheiro. No entanto, nunca se soube, ou se ouviu dizer o porquê, Simeão e a esposa vieram a enlouquecer, e se mataram enforcados.

O milharal do Diabo permanece lá, intocável no mesmo lugar.



sábado, 1 de novembro de 2014

Estranho e Extraordinário



O Telefonema


O bar do Luís era famoso na região por causa de um misterioso telefonema. Diariamente, às quatro horas da tarde, o telefone tocava e um homem perguntava se era do bar do Luís e pedia para falar com Sílvia.
Quando se perguntava quem queria falar com ela, o telefone ficava mudo. A princípio, todos pensaram que fosse uma brincadeira. Porém, devido à insistência, a brincadeira perdeu a graça. Quando o dono do bar foi à Companhia Telefônica investigar se a ligação era local ou de fora, o mistério aumentou. Descobriram que ninguém telefonava para o bar naquela hora. Com o tempo, Sr. Luís deixou de atender ao telefone e desistiu de descobrir quem dizia querer falar com a tal Sílvia. Certo dia, uma mulher que em tempos anteriores costumava ir ao bar do Luís em busca de algum item de mercearia, mas que ele não via há mais de cinco anos entrou no bar. Sr. Luís comentou sobre a ausência da antiga freguesa, e como ela era muito simpática e conversativa, começaram a papear. – Ela havia chegado do Sul e estava visitando todos os conhecidos. Enquanto ela explicava ao dono do bar que tinha saído da cidade por causa de uma briga com o pai – um fazendeiro riquíssimo –, que não queria que ela se casasse com um empregado chamado Edmundo, o telefone começou a tocar: eram quatro horas. Ela explicava que quando o pai percebeu que estava muito doente e ia morrer, mandou chamá-la de volta; mas ela tinha decidido voltar somente depois da morte do pai. Quanto ao namorado, apesar de amá-lo muito, nunca mais o vira. Ele faltou ao último encontro, quando se preparavam para fugir. Eles conversavam e o telefone insistia. Como Sr. Luís continuasse a conversar, ela pediu que ele atendesse ao telefone. Ele respondeu que não adiantava: era alguém que há cinco anos queria falar com “uma Sílvia”. A mulher ficou intrigada, disse que se chamava Sílvia, e pediu para atender. Do outro lado uma voz disse: “Sílvia, Sílvia querida, eu não faltei ao nosso encontro. Eu te amo, mas nada podemos fazer. Meu corpo está no precipício perto da Estrada Norte. Eu não te esqueci...” Antes de terminar a ligação, Sílvia estava desmaiada. No dia seguinte, a polícia localizou os restos de Edmundo, no local indicado. Ele tinha sido assassinado pelos capangas do pai de Sílvia. A partir desse dia o telefone voltou a funcionar normalmente. Edmundo tinha encontrado a paz.


Revista Planeta, Julho de 1973.

domingo, 26 de outubro de 2014

Histórias de Terror Assustador que dão Medo!


Resumido e Adaptado do artigo “Na pista do Diabo de Jersey” de Mike Mallowe na edição de março de 1986 da Revista Seleções do Reader’s Digest.



O Diabo de Jersey


Lenda

A Linha de árvores marca o limite sul do pinheiral de Nova Jersey, com mais de 400 hectares de pinheiros e carvalhos em solo arenoso. Por mais de 200 anos, essa floresta assustadora tem sido a área de caça da criatura conhecida como o Diabo de Jersey.

Milhares de pessoas dizem tê-lo visto ou pegadas suas. Muitas dessas testemunhas oculares são merecedoras de crédito: policiais, guardas-florestais... Homens já o perseguiram e atiraram contra ele. Velhos relatos descrevem-no com corpo de canguru, cabeça de cavalo, focinho de collie, asas de morcego, um longo rabo e fogo saindo pelas narinas.
No entanto, a coisa continua frequentando furtivamente aqueles vastos bosques, assombrando como num pesadelo.

De acordo com a lenda, o Diabo de Jersey nasceu de uma mulher no ano de 1735, em Leeds Point, pequeno lugarejo a 15 km apenas de Atlantic City.
Segundo uma das versões mais antigas da lenda, uma mulher quacre (adepta de uma seita protestante fundada no século XVII), conhecida como Mãe Leeds, havia sido acusada de bruxaria e quase queimada como feiticeira. Ela estava esperando o 13º filho e as pessoas do lugar temiam que o Demônio fosse o pai da criança. De qualquer forma, pouco antes de dar à lua, Mãe Leeds amaldiçoou o filho, entregando-o a Satanás.

No começo o bebê parecia normal. De repente, enquanto as parteiras olhavam horrorizadas, apareceram-lhe garras, pés de cabra, asas e uma cauda. O monstro matou diversas pessoas no aposento, desapareceu pela chaminé e foi visto pela última vez correndo em direção aos pinheiros.



No encalço do Diabo

Algumas semanas depois de entrar com contato com James F. McCloy e Ray Miller Jr., autores do livro “O Diabo de Jersey”, o jornalista Mike foi até o local onde teria nascido a criatura.

Mesmo à luz da tarde, o cemitério parecia escuro. Um único carvalho possante erguia-se de súbito por entre as carreiras de pedras tumulares. A distância, além de um campo aberto e crestado, começavam as árvores. Os sons da floresta quebravam o silêncio do cemitério deserto, sussurrando, chamando.

“Não é difícil encontra-lo” – disse-lhe alguém “Ande em linha reta, do cemitério até o pântano. Está incendiada, mas ainda se pode ver o perfil da casa sob as trepadeiras”. Depois tocou no seu braço e o olhou com um olhar vago. “Faça tudo para sair daqueles bosques antes do escurecer”.

Seguindo um raio de luz brilhante que parecia surgir do céu sem nuvens, Mike penetrou no pinheiral sozinho.
Suas botas pesadas afundavam a cada passo. A vegetação rasteira (um lençol de folhas, agulhas de pinheiro e musgo) dava ao solo uma textura esquisita. Era como se ele estivesse sendo sugado terra adentro.

Mike chegou às ruínas de um forno colonial. 

– No passado, ali havia estado a capital do minério de ferro nos EUA. Era uma região próspera, porém a indústria (e a maioria das pessoas) logo se mudou mais para oeste. Outros, contudo, penetraram no interior das florestas, e foram trabalhar nos mangues: passaram a ser chamados de “Pineys”. São gente decidida, hostil a estranhos e muito misteriosa. Seja o que for, o Diabo de Jersey é um deles.

Já deveria estar se aproximando do lugar onde nasceu “aquilo”. Foi quando ouviu um zumbido diferente de tudo que conhecia. Achou que correndo, poderia deixa-lo para trás, mas 6 metros adiante ele estava mais forte. Então, bem por cima do ombro direito do jornalista, viu-o de relance: alguma coisa dentro das moitas movia-se paralelamente. Mike ficou pensando nas instruções “Saia antes do escurecer”.

O zumbido parou. O que quer que fosse – um piney, o Diabo ou sua própria imaginação – desapareceu. O crepúsculo já descia quanto Mike entrou na clareira. Adiante, mal conseguia ver o retângulo das fundações de uma casa. Porém, quanto mais perto ele chegava mais parecia um buraco negro no chão. O jornalista tratou de voltar depressa por onde tinha ido antes do escurecer.
A única coisa que ele tinha em mente agora, enquanto se apressava ao lusco-fusco da tarde, era a sobrevivência. Não tinha absolutamente ideia de que lado tinha vindo. O pinheiral fechava-se sobre ele. Suas botas afundavam cada vez mais no chão lodoso e ela já se via preso num pântano.
De repente começou a correr. Seus braços e mãos sangravam com os espinhos, enquanto abria caminho entre arbustos duas vezes mais altos do que ele. Passou correndo por um cedro, que parecia uma grotesca gárgula.
Logo em seguida foi parar num mato ralo e espesso, com a linha de árvores atrás de si. Tinha conseguido sair daquele bosque.
Mike queria se sentar e descansar, mas teve medo. Então, a distância, avistou o cemitério de Leeds Point e o seu carro logo atrás. Começou a se sentir ridículo. Apagando a lanterna, resolveu cortar caminho através do cemitério.
Então escutou o zumbido novamente. Uma sombra ergueu-se de uma das lousas com o nome Leeds – era um enxame de insetos, que começou a picar o jornalista no pescoço, no rosto e nas mãos, sugando seu sangue até entre os cabelos. Correu para o carro. A nuvem o seguia. Conseguiu matar um inseto. Era uma mosca do mangue. Seu pescoço começou a inchar com as picadas. O zumbido era agora tão alto como na floresta.
Acabou entrando no carro, virou a chave e apertou o acelerador – Não fosse aquilo enguiçar agora!
Ao virar o carro, a luz dos faróis altos bateu na linha de árvores por apenas um momento, banhando-a de uma claridade fantasmagórica. Pensou ver algo que se movia, mas prosseguiu, deixando Leeds Point o mais rápido possível.



Mike não tornou a desafiar aquele bosque de pinheiros. O Diabo ou lá o que for que vive ali.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Estranho e Extraordinário



A seguinte história foi publicada na edição de 28 de novembro de 2012, na coluna “Conexão” do Jornal carioca “Expresso”:

Suely achou a casa dos sonhos. O clima inspirava realização. Mas algo a incomodou: na entrada, um vitrô colorido mostrava uma figura de um pássaro, contornado por uma cadeia de montanhas. Ela disse ao viúvo que apresentava a casa: “Olha, a casa é um brinco, Mas aquele vitrô... vou tirar!”. O Homem ficou desapontado, e comentou que o vitrô fora desenhado e inspirado em uma pintura de sua mulher.
Suely se mudou, Duas semanas depois, decidiu que colocaria só vidros lisos e naturais. Então veio o inesperado: estava com a filha, diante da TV, quando a menina caminhou para a escada. A mãe viu a filha balançando a cabeça afirmativamente e a filha disse: “Ouviu o que a moça falou? Ela quer que você deixe o vitrô que ela pintou, do jeito que é”. Suely ficou arrepiada. Voltou ao sopé da escada e viu uma silhueta, sutil, em forma de fumaça. Prometeu: “Vou preservar a casa do jeito que está. Do jeito que planejou!” E assim está até hoje.

sábado, 18 de outubro de 2014

A Menina que Curava




Hope olhou para Job, que estava ao volante, e segurou-lhe carinhosamente a mão direita. Sentia-se mais feliz do que em qualquer época da vida de que se lembrasse. 
O casal deixava o extremo nordeste dos Estados Unidos, onde Hope nascera e vivera até então, e viajavam com destino a Denver.
Tudo o que Hope mais desejava era deixar tudo para trás, tudo ficaria no Maine e começaria uma vida nova e feliz com Job em Denver.
Amy, filha de Hope, fruto do seu primeiro casamento, estava sentada no banco de trás do carro.
Job era completamente diferente de Vince – seu primeiro marido – Ele a amava e queria de verdade ser feliz com ela e a pequena Amy, diferente de Vince, interesseiro.
Era linda a vista a partir daquele ponto da estrada, que contornava as montanhas, era a vista de um verdadeiro milagre!

Uma curva longa, sem visão devido à encosta, Job virou o volante bruscamente por causa de um caminhão em sentido oposto, que fazia uma ultrapassagem imprudente – talvez houvesse óleo na pista – era um trecho com muito trafego de caminhões madeireiros, e era comum haver óleo no asfalto – Job tentou manter o carro na pista. Poderiam acabar caindo pelo desfiladeiro. O carro derrapou e capotou várias vezes.

***

30 anos antes...

Algo faltava à vida do Reverendo Issac Donaldson e de sua esposa Olivia. Responsável há mais de dez anos por sua igreja, o reverendo já beirava os cinquenta anos e ainda não tinha filhos. Há muitos anos esperava que sua esposa engravidasse. Olivia era apenas dois anos mais jovem que seu marido. Estavam casados há mais de vinte anos.
Olivia sofria pela ausência de gravidez, pensava que talvez fosse estéril, ou o marido o fosse... pensava em adotar uma criança. O reverendo discordava. – Tentavam há tantos anos! “A razão para ainda não termos tidos filhos, pode ser que o Senhor tenha algum proposito, um plano para nossas vidas” – dizia Issac Donaldson à esposa. E em respostas às preocupações da esposa sobre ‘gravidez de risco’, respondia “Abraão e Sarah eram já avançados em idade quando Sarah concebeu Isaque... O Deus daqueles tempos é o mesmo Deus hoje!”. – dizia citando o livro de Genesis.
Olivia colocava a intenção de engravidar em todas as campanhas de oração com as irmãs de fé.

Até que, finalmente, um dia, chegou a grande notícia: Olivia, esposa do reverendo, estava grávida – houve grande regozijo da comunidade...

Os exames revelaram que seria uma menina – como foram tantos anos de expectativa e anseio por essa gravidez, decidiram dar à menina o nome “Hope”.*

* (hope = esperança)

Houve o caso de uma mulher que frequentava a igreja que ao passar a mão na barriga de Olivia - quando esta estava de oito meses – desmaiou instantaneamente e ao acordar vomitou uma estranha gosma negra, e, a partir desse momento nunca mais voltou a fumar – lutava contra esse vício desde que passara a frequentar a igreja do reverendo Donaldson.

Após o nascimento, muitas irmãs foram visitar a recém-nascida. Uma mulher que lutava contra uma doença e os médicos já haviam marcado a data para amputar-lhe uma das pernas, sentiu-se “eletrificada” ao segurar a bebê.
Após isso os médicos constataram que estava sã – o fato foi considerado milagre, e atribuído ao bebê. 

Quando Hope tinha sete anos, sua mãe a observava da varanda da casa paroquial, quando viu a menina se aproximar de um gato ferido – ela o segurou por um tempo e o animal ficou curado. Olivia contou o ocorrido ao marido.

Hope possuía um dom! A menina era uma dádiva de Deus.

Hope ministrava orações de cura durante os cultos, e muitas pessoas eram curadas pela imposição de suas mãos. 
Os cultos de cura, realizados às quintas-feiras passou a lotar de pessoas em busca de milagres. Muitos casos de curas milagrosas eram atribuídos à menina. Os fiéis caíam às pencas, quando a pequena Hope erguiam as mãos em direção à assembleia ali reunida; e quando levantavam estavam curadas.

Hope ganhou notoriedade nacional e pessoas de várias partes dos Estados Unidos viajavam ao estado de Maine para serem curadas pela menina milagreira.

“Não executo os milagres, se acontecem é pela Graça de Deus, que me usa como um canal para as Suas bênçãos” – a menina respondia ao jornalista com a frase que refletia o que aprendera de seu pai, o reverendo.
“O que eu faço é orar a Deus e peço que as cure”.

Entretanto, a vida da pequena Hope, de rosto angelical, cabelos loiros e olhos de anjos, não era tão boa na escola.
As demais crianças a julgavam “estranha” e a menina vivia isolada pelas demais.
Hope observava de longe as outras garotas sem ter coragem de se aproximar.
Certa vez viu Megan Stark cair de um brinquedo. Megan chorava no chão – havia quebrado o braço na queda. Hope se aproximou e a tocou – o braço de Megan se curou na hora. Megan ficou olhando para Hope, que apenas sorriu, e voltou ao seu canto isolado.

Anos mais tarde, quando Hope tinha já onze anos. As outras meninas da escola a cercaram e caçoavam dela, chamavam-na de “bruxa” e a ameaçavam... Megan Stark – a quem Hope curara anos atrás – sentiu vontade de se colocar contras as demais meninas, mas não teve coragem. Hope correu e entrou no prédio da escola. Ao entrar na sala de aula vazia a porta atrás dela bateu sozinha, se trancando. Hope se sentou com os pés em cima da carteira e colocou a cabeça entre os joelhos. Inexplicavelmente um incêndio começou na sala. Tentavam sem êxito arrombar a porta e o incêndio rapidamente se alastrou por toda a escola. Um bombeiro, finalmente, entrou no prédio em chamas, e com um machado arrebentou a porta da sala onde se encontrava Hope – o bombeiro saiu do prédio com a menina nos braços. A menina em estado muito grave foi levada ao hospital. 
Os médicos deixaram a sala onde tentaram salvar a criança – apesar de todos os seus esforços não puderam evitar seu falecimento. Quando estavam se preparando para notificar o óbito da filha ao reverendo Donaldson, Hope surgiu no corredor – sem uma marca sequer das queimaduras.

Hope passou a ter aulas particulares em casa. Seu mundo se resumia basicamente à igreja, e a casa paroquial... Certa vez, fora reconhecida na rua, enquanto acompanhava a mãe, e uma multidão as cercou – foi preciso ajuda policial para conter a histeria de uma multidão, que pediam cura para si e para parentes. Depois do assédio histérico em massa Hope sentia-se esgotada – como se uma grande parcela de energia se tivesse desprendido dela. – Desde então, a menina viveu confinada.

Aos catorze anos aconteceu o evento mais traumático da vida de Hope. Ao entrar em casa o reverendo Donaldson percebeu uma música tocando dentro do quarto fechado de Hope. Ele subiu as escadas e encontrou a filha dançando uma música secular – “Baby one more time” de Britney Spears. Issac Donaldson arrancou o cinto e surrava a menina enquanto gritava para esta sobre “a música do mundo” e sobre “como aquela música serviria de entrada para Satanás naquela casa e na vida dela”, sobre “a luxúria daquela dança sensual”...
Naquele instante Hope sentiu muito raiva! Gritava para que o pai parasse... o reverendo foi arremessado para trás e sentiu o peito apertando... ficou sem ar... uma dor horrível no tórax... Hope agora se desesperava ao ver o pai se contorcer...
O reverendo Donaldson morreu de enfarte do coração.

Olivia Donaldson ocultou a todos o que exatamente aconteceu no exato momento da morte do marido.

Céticos – os mesmo que duvidavam que Hope fora socorrida já em estado gravíssimo do incêndio que provocara (certamente com fósforos e algo inflamável) na escola – se perguntavam por que “a menina que ressuscitou em um hospital de Maine” não ressuscitou o pai.

A morte do pai fez Hope acreditar que – dom de Deus, ou o que fosse – aquele “poder” que trazia consigo, não era algo que servia apenas como “benção”, mas que também poderia ser “maldição”. O modo como vivia e a perda do pai, certamente não eram uma benção. 

Aos vinte anos Hope deixou sua casa, sua congregação e sua mãe, mudou-se para uma cidade vizinha, onde esperava viver livre e não ser mais “a menina dos milagres”.

Foi quando conheceu Vince Lachance. 
Vince era bonito, e parecia corresponder a todos os anseios de vida de Hope. Ele era muito galanteador e em pouco tempo envolveu a inocente Hope, fazendo-a se apaixonar perdidamente por ele.

Algum tempo depois que já estavam juntos, Vince revelou que desde o início sabia tratar-se da garota que fora conhecida como a criança milagrosa. Vince também deu a Hope um novo entendimento sobre “seu dom”. Hope se converteu ao Espiritismo e agora se definia como “paranormal”. Nesses tempos recebeu a notícia da morte da mãe, com quem não conversava há dois anos.
Vince se aproveitava de Hope, e, com muita habilidade em manipula-la a transformou novamente em “grande atração”, conseguindo, inclusive, espaço na tevê para “shows de milagres da paranormal Hope”...

No entanto... À medida que o tempo passava Hope era cada vez menos capaz de executar os tais milagres... Antes era capaz de grandes curas... e agora apenas casos mais simples eram confirmados... 

Muitas pessoas que acreditavam terem sido curadas pela Hope, a paranormal, eram depois internadas e suas momentâneas melhoras dadas como psicossomáticas.
Vince procurou forjar milagres – primeiro sem o conhecimento de Hope, e posteriormente a envolvendo nas farsas... Hope aceitou isso por um tempo... Mas com o passar de alguns anos, de mau convívio com Vince, de desconfiar que o marido a traía... Hope deixou de amar Vince e de ser manipulada por ele... Hope foi, inclusive, a público falar sobre sua vida, sobre as farsas de Vince e sobre seus “dons”.

Hope acreditava que seu “Dom” diminuíra ao longo dos anos – era como se o poder de curar fosse uma energia que trouxe consigo ao nascer, mas que ao ser usado ia se gastando... por esta razão era capaz de curas maiores quando criança...

O divorcio com Vince Lachance foi um processo longo na justiça, assim como a disputa pela guarda de Amy – filha do casal. Talvez tivesse sido ainda mais difícil se Amy tivesse “herdado algum dom da mãe”...

Nesse momento da vida, que Hope conheceu Job Newsome. 
Job – recebera esse nome dos pais mórmons – era um bom rapaz, trabalhador, honesto... e sinceramente apaixonado por Hope. Também se deu muito bem com a pequena Amy.
Job tinha uma boa oportunidade em sua área profissional oferecida por uma companhia de Denver... Lá casaria com Hope e iniciariam vida nova.

***


– Após as capotagens do carro, que parou virado de cabeça para baixo à beira da estrada, e perigosamente próximo ao guard-rail. Job estava desmaiado e Hope muito ferida se esforçava para retirar a pequena Amy do carro...

Hope viu a filha morrer em seus braços... abraçou forte contra o peito o corpo da filha morta...

Momentos depois quando outro carro parou ao ver o veículo capotado e o motorista encontrou e despertou Job, estes encontraram Amy sentada ao lado do corpo caído de Hope, que jazia à beira da estrada.

Hope fizera sua escolha e precisara usar tudo o que lhe restara.