sábado, 30 de maio de 2015

Estranho e Extraordinário




Ele voltou de uma sessão de cinema, que fora com primos. Despediu-se da prima e do primo e foi para um bar, onde todas as noites encontrava alguns amigos. A visita ao bar foi rápida – apenas para manter o costume – e antes da uma hora ele já estava em casa: um prédio de apartamentos novo, recém-inaugurado. Estava completamente lúcido, pois não costumava beber em demasia. Chamou o elevador que estava parado no terceiro andar e esperou. Nada. Tornou a chamar com certa impaciência. Nada. Como ele morava no quinto andar, resolveu subir as escadas. Àquela hora da noite ninguém mais estava acordado para ficar segurando a porta de um elevador. Imaginou que a porta não tinha sido bem fechada e por isso ele não saía do lugar. Achou curioso que as luzes do terceiro andar estivessem apagadas. Isso não chegava a incomodar, pois uma certa claridade vinha do segundo e do quarto andares. Quando chegou perto do elevador para verificar se o problema era realmente a porta mal fechada, percebeu que um vulto se aproximava. Abriu a porta do elevador e acendeu um fósforo (a luz do elevador também estava apagada). O vulto já estava bem perto dele, mas não era um morador do prédio, como tinha pensado. Não era sequer um mortal, pois não tinha rosto. Com a rapidez do pensamento ele desceu as escadas e foi parar – quase sem fôlego – na calçada. E coragem para voltar? Voltou. Tinha que voltar. E nada aconteceu. Já em casa contou tudo aos seus pais que resolveram investigar o caso. Ficaram sabendo então que quando o prédio estava sendo construído, um operário tinha se enforcado justamente no terceiro andar.



Caso enviado à redação da revista Planeta por leitor e publicado na coluna ‘Casos Malditos’ da edição de Junho de 1974.

sábado, 23 de maio de 2015

Estranho e Extraordinário



Foi há mais de quarenta anos, em um bairro afastado da cidade de São Carlos. Estavam três amigos conversando calmamente na varada da casa do Sr. Antônio, que ficava próxima a um pequeno vale, de 50 metros de profundidade. A casa ficava bem isolada e o vale era completamente desabitado. A noite era clara e morna. Eram mais ou menos dez horas, quando perceberam um facho de luz sobre o vale. Era uma luz estranha, um facho curvo, como um arco-íris. Em um dos pontos, onde a luz tocava o solo, surgiu uma casa rustica. Os três amigos saíram da varanda e tentaram se aproximar do local o mais que podiam. Viram então que a casa era habitada. Para o espanto de todos, um homem surgiu na janela da casa. Tudo indicava ser um homem. O único detalhe destoante era sua cabeça – enorme. Sobre a cabeça um chapéu. Esse homem olhava atentamente para fora, como se procurasse alguém. Silenciosamente, a casa desapareceu como a imagem de um vídeo. Alguns minutos depois, a luz também desapareceu. O vale ficou novamente escuro, e os amigos se afastaram discutindo o caso. Como não chegaram a conclusão alguma, o Sr. Antônio resolveu voltar ao local na manhã seguinte. Nenhum sinal, Nenhuma casa podia ter estado ali, pois o terreno é muito acidentado. Mas todos eles juram tê-la visto.

Extraído de Revista Planeta, coluna “Casos Malditos” junho de 1974.

sábado, 16 de maio de 2015

Estranho e Extraordinário



Foi a 19 de fevereiro de 1969. Ana Renó estava em estado de coma, com câncer generalizado. Ela vivia com sua filha, Maria Apparecida, e sempre mostrou grande medo da morte. Seu maior desejo era morrer dormindo. Naquela madrugada – como sempre – Maria Apparecida dormia com o marido no sofá da sala, de onde podia ver a mãe no leito e dar-lhe a devida assistência. Ela já estava dormindo há um bom tempo quando acordou e viu a mãe perto do sofá. Ela era visível apenas da cintura para cima. Estava sustentada por alguém que Maria Apparecida não conhecia. Ouviu a mãe dizer: “Me larga, me larga”. A pessoa estranha respondeu: “Se nhá Maria larga, sinhá cai”. A moribunda chegou bem perto do sofá, onde Maria Apparecida já estava em pé. Olhou para o genro que dormia profundamente e o confundiu com seu irmão: “Olímpio, Olímpio, devo partir entre domingo e quarta-feira. Por favor, não me deixe sentir a morte”. Sabendo que Ana Renó não podia ficar ali, naquele estado, a filha falou energicamente: “Assim não pode ser, volte já para sua cama”. As duas figuras desapareceram e Maria Apparecida pode ver a mãe dormindo tranquilamente. Ela realmente morreu em uma quarta-feira, dia 10 de março. O estado comatoso não voltou desde aquela madrugada e a mulher não deve ter sofrido, pois morreu placidamente. Maria Apparecida afirma que teve dois contatos com a mãe, após sua morte. O primeiro foi pouco tempo depois da morte: a mãe apareceu para reclamar da sujeira da casa. Estava tudo desarrumado, com objetos pessoais espalhados pela sala e quartos. Mandou que a filha fizesse uma boa limpeza em tudo e que colocasse o que lhe tinha pertencido em vida, em um canto qualquer. Sua segunda visita foi para pedir que a filha visitasse uma tia que estava muito doente. Maria Apparecida foi visita-la e a mulher estava realmente de cama, precisando de ajuda. Depois disso, sua mãe nunca mais apareceu.

Extraído de Revista Planeta, coluna “Casos Malditos” junho de 1974.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Os Sanfoneiros e a Sexta-feira da Paixão.


A história de hoje, um senhor conhecido meu, me contou tê-la ouvido em um programa de rádio nos anos 1960. Achei muito divertida e por isso resolvi contá-la aqui. Mas fique registrada a origem da história.


Era uma sexta-feira santa... Em uma região rural, dois homens percorriam um longo caminho em estrada de terra. Iam buscar uma sanfona, uma vez que a que possuíam havida dado problema, e na noite seguinte, a do sábado de aleluia tocariam em um forró.

Depois que pegaram a sanfona que foram buscar, quando estavam para iniciar o caminho de volta, um dos amigos sugeriu:

“Acho que deveríamos testar a sanfona, compadre! Imagina se não estivar boa! Teríamos que voltar aqui, e não sei se daria tempo antes do forró!”.

“Mas, compadre, hoje é sexta-feira santa e você sabe que não se pode tocar sanfona!”.

“‘Ara’, mas só um acorde, e isso a modo de verificar a sanfona apenas! Não há de ser mal!”.

O homem então tocou um acorde. Os amigos ouviram outra sanfona responder ao longe

“Tá vendo? E isso?”.

“Larga a mão de ser besta deve ser o eco! Bem, ela tá funcionando, vamos seguir nosso caminho de volta, que temos muito o que andar!”.

“Toca de novo! Pra gente ver se é mesmo o eco, ou é outro sanfoneiro aí pelas estradinhas!”.

O sanfoneiro tocou novamente. Dessa vez um acorde com intervalo de sétima – chamado em música de acorde de preparação. Os companheiros ouviram, então, a outra sanfona ao longe responder tocando o acorde maior correspondente ao de preparação.

“Ouviu isso? Não é eco, é outro sanfoneiro por perto!”.

“Ainda não ‘to’ gostando disso! Outro sanfoneiro a essa hora da madrugada numa sexta santa, não acha estranho?”.

“Olha o tanto que é cismado!”.

O sanfoneiro, então, tocou a primeira parte de uma frase musical. A sanfona misteriosa, então, completou a frase. – Mas dessa vez pareceu estar mais próxima

Crendo que o sanfoneiro oculto fosse algum conhecido deles, os companheiros começaram a gostar da brincadeira de tocar e ouvir o outro responder. A cada vez que o sanfoneiro misterioso respondia parecia estar mais perto.

Quando já estavam em frente à porta da casa de um deles, o amigo com a sanfona tocou mais uma frase musical. Dessa vez a outra sanfona soou bem atrás deles.
Ambos os amigos se viraram risonhos e alegres para verem que seria o outro sanfoneiro.
Mas jamais esperavam ver aquilo com se depararam!

Quando os amigos olharam para trás deram de cara com o próprio Demônio e sua forma bizarra. Viram sua face horrenda, seus chifres, o longo rabo, o corpo coberto de pelos negros, os olhos vermelhos como o fogo do Inferno, seus pés de cascos de animal, e ele tinha nas mãos a sanfona com que estivera respondendo aos amigos

Os dois correram apavorados para dentro da casa, implorando ao Senhor que os perdoassem e os livrassem do Cão. E nunca mais ousaram faltar com o respeito com a sexta-feira santa!

O Diabo foi embora rindo bastante.



sexta-feira, 20 de março de 2015

Te Wairoa - cap 9


O último capítulo de Te Wairoa traz um poema escrito por meu caro amigo blogueio, o poeta Samuel Balbinot, autor do blog "Lapidando Versos".
Há também a bibliografia consultada, pois "Te Wairoa" foi baseada em fatos reais.
Espero que o você tenha apreciado a saga e goste do último capítulo!

...beijinhos***





O silêncio costumeiro
Foi rompido pelos gritos...
Na montanha um verdadeiro
Estrondo acendeu os mitos;

O demônio que dormia
Por séculos nesta terra...
Acordou pela magia
Negra a trazer nova guerra;

A coluna de fumaça
Expelida pelo vulcão...
Deixou negrume na praça...
Medrou a população;

Bolas de fogo fatais
Sendo lançadas aos céus;
Lava nas águas termais
Já fazem de todos réus;

Fogo purificador
Para os tantos pecadores...
Queimados vivos no horror
Junto com as mortas flores;

Tamanha foi a explosão
Que romperam-se as crateras...
Dando vazão a erupção
Da lava de tantas eras;

O lago antes cristalino
Foi engolido em segundos...
Revelando tal destino
Escrito por moribundos;

Tantos detritos lançados
Cortando corpos ao meio...
Todos sendo empilhados
No solo de cinzas cheio;

Corpos perdidos na lama...
Isentos de qualquer vida;
Almas que um anjo embalsama
Para a terra prometida;

A ilha toda devastada...
Lama e corpos sem ação;
Uma terra castigada

Pela força de um vulcão;

                                                                                                                Samuel Balbinot


Último Capítulo

A erupção continuou furiosamente até às seis da manhã. Nisto, tão subitamente como havia principiado, a chuva de lama parou.

Cerca de nove horas da manhã, a chuva de lama tornou-se mais leve. O vento, felizmente para eles, mudou para o sul. Pouco depois, Clara e os inspetores viram Joseph McRae, o dono do hotel, e seus cunhados, chegando para ver se alguém havia sobrevivido ao incêndio da escola. Foram todos até as ruínas e encontraram a senhorita Ina Haszard e a velha Maria abrigadas sob alguns móveis no que tinha sido o meu quarto onde estava Lundius. 
Mas não ouviram nenhum som ou indicação de qualquer outra pessoa viva sob os escombros.

Por essa altura todo mundo estava deixando Te Wairoa, indo para Rotorua, o único lugar habitado de mais fácil acesso naquele momento. 

A dor era terrível para as pessoas Tuhourangi e Ngati Rangitihi. Eles perderam membros da família, os seus meios de subsistência e os ossos de seus antepassados em uma noite terrível. 


As irmãs Ina e Clara não queriam partir – tinham ainda esperança de haver mais algum de sua família nos escombros da escola – a princípio se recusaram, acabaram cedendo à persuasão dos demais.
Lundius acreditava que não havia muita chance de mais alguém ser encontrado vivo entre as ruínas, e que não podiam ter certeza se o inferno não recomeçaria com uma nova chuva de lama vulcânica. “Nosso dever está mais para nossas vidas do que para com os mortos” – disse pesaroso. 

As irmãs Haszard e os inspetores decidiram, por fim, seguirem, como os demais sobreviventes para Rotorua.

Quando o grupo, formado pelas irmãs Haszards e os inspetores, saiu de Te Wairoa estava na região de Tikitapu, encontraram, para sua alegria, Ted Robertson que dirigia um bugre. Ted disse ao grupo que Rotorua estava intacta, mas a maioria das pessoas tinha ido para Tauranga ou Oxford (que depois passou a se chamar “Tirau”).

O motorista do bugre levou o grupo de volta para Te Wairoa, e eles começaram a limpar os escombros da casa demolida dos Haszard. Logo Lundius descobriu que o corte que havia sofrido quando quebrou as janelas foi mais grave do que ele pensava, e que não podia fazer muita escavação.

Depois de um tempo, viram uma mão se mover através de uma abertura feita pela escavação, e encontraram a Sra. Haszard viva. Assim que a retiraram dos escombros perceberam que uma de suas pernas estava esmagada. Ela contou que seus filhos estavam todos mortos. Improvisaram uma maca para a senhora.

Lundius descobriu o seu cavalo, que tinha deixado no cercado perto da casa. O cavalo tinha vários centímetros de lama em cima dele, embora não estivesse ferido de alguma forma. 

Lembrou-se do vaso com a caixa no lavadouro. Ao verificar constatou que o lavadouro estava intacto, então abrindo cuidadosamente a caixa descobriu que continha bananas conservadas!

***

Na noite da erupção, um grupo de construtores de estradas estava acampado no lado leste da planície Kaingaroa. Somente Maoris foram empregados Os homens tinham uma boa visão do Monte Tarawera. Eles podiam ver o terrível espetáculo de fogo e da nuvem decorrente da montanha. Um dos maoris pensou que o fim do mundo havia chegado, e que era hora de ele fazer as pazes com o seu Criador, especialmente porque ele tinha sim um passado ruim. O maori orou com fervor e acabou por dizer sinceramente – "Oh Senhor, se você me permitir viver esta noite, eu vou dar-lhe uma libra!”.
Esse Maori sobreviveu, mas não se sabe se ele pagou sua promessa.

***

Mr. Harris Lundius foi convidado pelo Mr. James Stewart, para atuar como guia para uma excursão com a intenção de ir tão perto quanto possível do local da revolta do vulcão. Partiram de Rotorua na manhã de sábado, 12 de Junho. Quando entraram onde antes tinha sido a aldeia Te Wairoa, ouviram de debaixo de um monte, onde concluíram que seria um whare (casa maori) soterrado, os mais angustiantes gritos horripilantes.

Naturalmente, chegaram à conclusão de que alguém foi enterrado lá e apressaram-se a obter alguns implementos para efetuar um resgate. Depois de esforços frenéticos chegamos ao telhado do whare. Quando conseguiram fazer uma abertura, saltou para fora um grande gato preto! 

Esse gato deve ter mais do que sete vidas! – disse Lundius

***

Quando os sessenta e dois sobreviventes saíram da casa de Sophia e dos poucos outros edifícios de Te Wairoa que resistiram à violência daquela noite, até onde a vista alcançava rodeava-os uma total desolação. Cerca de cento e trinta e dois quilômetros quadrados de terreno estavam enterrados sob a lama.



Muito mais tarde, a Guia Sophia se lembrou de que o antigo chefe Rangiheuea tinha oferecido mel coletados em Tarawera para ela. Sabendo que era tapu (proibido), ela recusou. Todos que comeram o mel morreram na erupção, incluindo o jornalista inglês e o chefe Rangiheuea. 


Em algumas áreas as equipes de salvamento trabalharam dentro do lodo cinza-escuro que lhes batia pela cintura. A aldeia maori de Te Akiki, situada a apenas alguns quilômetros da montanha em erupção, tinha desaparecido sob uma camada de lama de dez metros de espessura. Uma outra aldeia, Moura, e seus habitantes nativos, desapareceu da mesma maneira.


Tama arduamente cavou por quatro dias até conseguir achar o whare de Tuhoto Ariki. O bruxo estava vivo, murmurava palavras de magia karakia – Tamaohoi protegeu e poupou seu libertador.
Ariki ter sobrevivido soterrado por quatro dias causou grande espanto nas pessoas.
O bruxo disse que estava no Reinga (mundo espiritual) até ser perturbado pelo feixe de luz. O feiticeiro não pareceu satisfeito por ter sido perturbado. Muitos maoris se sentiram revoltados com a sobrevivência de Ariki.
– Por que não o deixou lá onde estava? – perguntavam a Tama, e diziam que cobri-lo novamente de terra seria o melhor a ser feito.


Dado que a região era tão pouco habitada, o número de mortos pela erupção do Tarawera foi relativamente pequeno: cento e cinquenta e três pessoas. Além da chuva de lama, as cinzas vulcânicas caíram em regiões a duzentos quilômetros de distancia; o território atingido pelas precipitações foi de quinze mil oitocentos e cinquenta quilômetros quadrados, e estimativas calcularam que contivesse mais de mil e quinhentos milhões de metros cúbicos de cinzas.

Se bem que os Terraços Rosa e Branco tenham desaparecido, os turistas afluíram para ver os tempestuosos escapes de vapores e os lagos de lama fervente que brotavam da cavidade onde antes existia o lago Rotomahana. Sete anos depois da erupção, contudo, essa atividade cessou bruscamente. Água fervente começou a jorrar do solo e em duas semanas a área foi submersa. Com o tempo, a água esfriou e hoje existe um novo lago Rotomahana, vinte vezes maior que o antigo, ficando o local dos desaparecidos Terraços Rosa e Branco a cento e cinquenta metros de profundidade.



Sophia – continuou seu trabalho de guia-turística, quando ela se mudou para a vizinha Te Whakarewarewa. Em 1895, ela se juntou a uma Companhia Dramática, excursionando em uma viagem à Austrália. Em 1896 ela foi nomeada zeladora da reserva térmica Whakarewarewa.
Ela incentivou muitas mulheres locais a se tornarem guias-turísticas, ajudando a estabelecer essa ocupação como uma forma lucrativa de emprego para as mulheres da tribo Tuhourangi.
Sophia também se engajou fortemente na União Feminina de Temperança Cristã da Nova Zelândia, tornando-se presidente da filial de Whakarewarewa em 1896.
Sophia morreu em Whakarewarewa em 4 de dezembro 1911.  
Alguns de seus muitos descendentes ainda vivem em Whakarewarewa, e uma rua em Rotorua leva seu nome.

A Sra. Haszard curou-se dos ferimentos e viveu até os oitentas e dois anos.

Clara perdeu o vislumbre por Auckland e cidades grandes e se engajou em perpetuar a memória da Te Wairoa

Tama veio a conhecer uma jovem maori quatro anos mais jovem que ele, por quem veio a se apaixonar e se casaram.

Tuhoto Ariki debilitado precisou ser levado para o hospital de Rotorua, onde foi tratado por médicos e enfermeiros. Mas veio a falecer. Apesar de seus 104 anos de idade os maoris disseram que ele viveria por muitos mais anos, se no hospital não tivessem sido cortados seus cabelos – como todos os maoris sabem é um assunto muito sério cortar os cabelos de um feiticeiro tohunga.


***


A erupção da Montanha Tarawera aconteceu há mais de 100 anos. 
Turistas de todo o mundo ainda visitam a montanha. As pessoas podem até mesmo ser “transportadas para a história da erupção” no Museu de Rotorua, explorando o local escavado da aldeia de Te Wairoa, conhecida hoje como "The Village Buried" (A Vila Enterrada), e conhecer os descendentes dos sobreviventes que vivem em Te Whakarewarewa.



A região antes devastada e coberta de lama está hoje de novo verde e bonita. Arbustos, musgos e pinheiros cresceram e ocultaram a devastação do monte Tarawera, mas não se pode olhar para a montanha sem um arrepio de medo – ou cruzar os belos lagos sem ficar um pouco na expectativa de uma súbita nova aparição de Waka-Wairua - A Canoa-Fantasma. 



Bibliografia consultada

teara.govt.nz
rotoruamuseum.co.nz
paperspast.natlib.govt.nz
elibrarynz.com
nzhistory.net.nz
tatuagem.com.br/maori/cultura-maori
msnucleus.org/
nzetc.victoria.ac.nz/

segunda-feira, 16 de março de 2015

Te Wairoa - cap 8




Capítulo 8

O primeiro pico a entrar em erupção foi o pico Wahanga, mais distante para o norte, por volta das 01h30. Isto foi seguido de pico médio mais elevado e, Ruawahia em seguida.

Tamaohoi, o demônio da montanha, dormiu durante muitos séculos.

Sob a influência do homem branco, a moral da população local diminuiu até que Tamaohoi, invocado por Ariki, pode voltar para punir os pecadores.

Ariki proferiu seus encantamentos mais potentes, a magia fatal do makutu (magia negra maori), invocou Rūaumoko (divindade vulcânica) para punir os pecadores, e libertou Tamaohoi, o demônio da montanha, de seu abismo escuro para seu ato de vingança.

Charles Haszard, sua família e os hóspedes olhavam com admiração em todo o lago em um brilho vermelho. Enquanto observavam, uma nuvem negra e densa subiu acima do brilho, iluminado por uma exibição tremenda de um raio.


Línguas de chamas rugiam nos ares e bolas de fogo rolavam dos picos. Uma enorme coluna de fogo podia ser vista atirando para o ar, formando uma nuvem negra de fumaça e cinzas. Rochas fundidas foram arremessadas para fora do vulcão, caindo no lago com um assobio.

O Lago Tarawera era um espelho de cobre, refletindo a montanha da base à cúpula em um olhar sinistro. Dominando tudo, pendurou a grande cortina de nuvem, sombria e escura. A partir da nuvem, grandes bolas de chamas caiam de vez em quando, descendo com um respingo nas águas do lago.

O violento distúrbio atmosférico criado pelas erupções originou um temporal ao nível do solo, que arrasou uma floresta inteira no vale de Wairoa, a vinte quilômetros da montanha.

Nos primeiros momentos da erupção, poucas pessoas dali compreenderam o perigo potencial que ela representava para suas vidas. A maioria dos habitantes pensou sem dúvida que mesmo a maré de lava seria detida pelos oito quilômetros de largura do lago Tarawera.

Charlez Haszard, diretor da escola local, disse para sua esposa “Nós nunca mais veremos uma cena como esta”. Suas palavras foram tragicamente proféticas.

Às 3h30 da madrugada, formaram-se sob a superfície da terra pressões grandes demais para serem escoadas através das três crateras incandescentes, e, com uma série de explosões que foram ouvidas em Christchurch, a seiscentos e setenta quilômetros de distância. A parte sudoeste da montanha voou pelos ares. Uma fenda de forma triangular rachou uma das crateras de alto a baixo e uma fissura com um quilômetro de largura abriu-se no lago Rotomahana. Numa questão de segundos o lago e os Terraços Rosa e Branco desapareceram, deixando um buraco com aproximadamente dois quilômetros e meio de largura por cem metros de profundidade.


Toda a água do lago de cento e quinze hectares, assim como incontáveis toneladas de lama, foi atirada para os céus e desabou sobre Te Wairoa. A água e a lama foram seguidas por milhões de metros cúbicos de lava expelida do que viria a chamar-se a Fenda de Tarawera.

Uma nuvem negra e densa formou-se sobre as montanhas, mas em Te Wairoa continuou a desconhecer-se qual era sua constituição. Então uma chuva de lava, cinzas e poeira começou a cair. Iniciou-se um pesadelo para os habitantes da cidadezinha.

Um vento forte acompanhado por um barulho ensurdecedor de janelas quebradas.

Às três horas, os que estavam na casa da escola ouviram um barulho como de pedras caindo em cima da casa. O barulho era tão grande que não podiam ouvir um ao outro falar. Mr. Lundius pegou uma das pedras.
A chuva de pedras vulcânicas continuou a cair sobre a casa por cerca de uma hora.
Uma tremenda tempestade de vento começou e, em seguida, o vento desceu pela chaminé, com tal força, que quase os sufocou com a fumaça.

Por volta das quatro horas todos, excetuando os Mrs. Blythe e Lundius, se amontoaram no meio da quarto, acreditando, agora, ser este o lugar mais seguro, pois as paredes estavam esbugalhando e ameaçando vir dentro.
Clara andou até a porta – “Acho que ela não vai aguentar!” Mrs. Blythe e Lundius estavam parados no mesmo lugar, quando de repente houve um enorme estrondo e tudo ficou escuro, o teto caindo em cima deles.

Clara agarrou, instintivamente, de um lado a mão de Mr. Blythe, e de outro a de Mr. Lundius.
Enquanto isso, a lama caía sobre suas cabeças.
Mr. Lundius pulou e socou as janelas, cortando muito a mão. Terminou de rebenta-las com chutes. Lundius saiu pela janela e gritou para Clara – “Saia, Senhorita Haszard”, e ele a puxou para fora. Mr. Blythe saiu em seguida.

Ao estarem em campo aberto foram atingidos nas cabeças e nos corpos por pedaços de detritos. Correram para a porta.

Mr. Blythe queria voltar para dentro da casa, mas Lundius o deteve, temendo que o teto viesse a desabar. O telhado já estava tão curvado para baixo, que não era possível entrar em alguns dos outros quartos. Lundius que abriu a porta e ficou parado lá. Lundius convenceu Clara e Blythe de continuarem na varanda, de modo que se o telhado desabasse tivessem uma chance de escapar das consequências.

Clara estava morrendo de frio, e o Mr. Blythe conseguiu apanhar alguns cobertores para protegê-la do frio.

Os três correram para o jardim. Gritavam na tentativa de ouvir a alguma outra pessoa, mas o barulho era alto demais!
Depois de um curto período de tempo, que para eles parecia uma eternidade, ouviram uma explosão próxima, olhando para trás, descobriram que a casa de onde fugiram estava em chamas.

Um raio havia atingido a escola e provocado o incêndio

Uma parte do edifício explodiu em chamas, foi quando o teto desabou. Charlez Haszard e seu jovem sobrinho foram mortos instantaneamente. Ina e a criada Velha Maria se protegeram sob uma resistente mesa de carvalho. A Sra. Haszard estava sentada no meio da sala, rodeada pelos seus três filhos mais novos, com as idades de dez, seis e quatro anos. Um alto guarda-louça deteve as madeiras e as chapas do teto, impedindo-as de cair sobre o grupo. A Sra. Haszard, porém, ficou presa no chão por uma viga que lhe esmagou uma perna. Impossibilitada de ajudar seus filhos, ali ficou, totalmente, consciente, durante sete horas, enquanto, uma por uma, as três crianças morriam a seu lado, sufocadas pela lama.
Mona, de quatro anos, que estava nos braços da Sra. Haszard, gritava que lhe desse mais espaço, porque o corpo da mãe a apertava contra a viga, mas a lama não a me deixava. A criança acabou esmagada. Adolphus, de dez, disse – “Mamãe, eu quero morrer com você” – e não voltou a falar. A pequena Flora, de seis, morreu pouco depois.


No hotel de McRae, uma das duas hospedarias da aldeia, a princípio a erupção não preocupou muito os doze hóspedes, mas quando a lama, as pedras e as bolas de fogo começaram a amontoar-se no teto, o proprietário, Joseph McRae, começou a ver que estavam em perigo. Era tarde demais para fugir. Uma lama profunda cobria o solo. Nem cavalos nem homens já seriam capazes de atravessar o atoleiro.
Uma hora depois de a erupção ter começado, o teto do hotel desabou com estrondo, esmagando o andar superior. Os andares de baixo aguentaram-se.

“Vamos nos abrigar na sala da recepção!” – McRae levou seus hóspedes para a recém-construída nova sala de recepção.

Na sala de recepção todos se amontoaram no escuro, rezando e acendendo fósforos de vez em quando para examinarem o teto.

Edwin Bainbridge, o jornalista, escreveu em suas anotações – “Estamos sob uma forte chuva vulcânica. Este é o momento mais terrível da minha vida. Eu não posso dizer quando eu posso ser chamado a comparecer diante de nosso bom Deus. Eu sou grato por encontrar forças n’Ele”.

Em pouco tempo este teto começou a mover-se ameaçadoramente.

“Precisamos deixar o hotel! Temos que sair!” – McRae convocou a todos para deixarem o local – Por mais aterrorizante que fosse a perspectiva de enfrentar a torrente de lama e rochas que caía do lado de fora, estava claro que permanecer no hotel significava morte certa.

McRae e seus hóspedes foram para fora. Neste momento a sacada do hotel desabou, esmagando e matando o jornalista inglês Edwin Bainbridge.

Através das trevas infernais os sobreviventes do hotel viram uma luz a trinta metros de distância. Avançando a custo, desesperadamente através do atoleiro, McRae e três dos hóspedes conseguiram chegar à sólida casa da guia Sophia, onde haviam muitas outras pessoas abrigadas – mais de 60 pessoas se abrigaram no whare (casa) de Sophia. Ao contrário de muitos dos edifícios da aldeia sua casa resistiu ao poder destrutivo da erupção, devido ao seu telhado agudo e paredes de madeira reforçadas fortes, típicos de um whare.

Cinco dos turistas, no entanto, tinham ficado para trás, perdidos na escuridão.

McRae, sem hesitar, pôs um xale dobrado sobre a cabeça.

– Preciso voltar, alguns dos que me acompanhavam se perderam! – disse o dono do hotel.

– Não, Mr.McRae, o senhor não pode voltar, morrerá – Sophia exortou o escocês.

– Preciso tentar!

McRae correu de volta para o Inferno, a fim de buscar os que faltavam. Encontrou dois deles abrigados em outra casa, dois outros perdidos na escuridão e um escondido sob uma árvore.

O trio, formado por Clara e os inspetores, se esforçava para encontrar algum abrigo, corriam tropeçando em algumas árvores desenraizadas na escuridão. Enfrentando agora um vento quente e sufocante.
Podendo enxergar, graças à claridade gerada pela escola em chamas, viram que o galinheiro estava em pé, e correram para se abrigarem lá. De onde observavam de lá a escola pegando fogo.

Lundius tomou a precaução de escorar as vigas do galinheiro com algumas madeiras que encontrou lá.

Clara, Lundius e Blythe permaneceram no galinheiro até a luz do dia seguinte.

Durante a noite que passaram no galinheiro Lundius se perguntava o que aconteceria se o fogo se disseminasse até o lavadouro, onde o vaso de barro com a caixa de explosivos foi depositado.

A erupção continuou furiosamente até às seis da manhã. Nisto, tão subitamente como havia principiado, a chuva de lama parou.


quarta-feira, 11 de março de 2015

Te Wairoa - cap 7



Capítulo Sete

Tama encontrou Ariki, sentado serene em seu whare (casa).

“Tohunga, será que eu posso lhe perguntar” – disse o jovem.

“Pergunte e eu lhe responderei – de fato – eu já sei a pergunta que você traz no coração, jovem” – respondeu o feiticeiro – “Você está penoso pela destruição do povoado que virá em breve!”.

“O senhor, tem algo a ver com isso?” – perguntou receoso.

“Os de nossa tribo teem pecado, Tama, e os pecadores precisam ser punidos. Eu os avisei, eu os exortei a se converterem do mau caminho e voltarem a honrar aos antepassados! Você me pergunta se eu tenho algo a ver com isso! A culpa do que está para acontecer é do caminho escolhido pelos de nossa tribo!”.

Tama considerou a resposta do tohunga efusiva, mas se deu por satisfeito e respeitosamente assentiu.

***


Para todos os nativos em Te Wairoa aquilo era uma certeza! 
A aparição de Waka-Wairua, somado ao fato de que mais cedo no mesmo dia as águas do lago subiram de repente em toda sua extensão, era um presságio de desastre, terrível e inevitável.

Contudo, tais fatos não despertaram desespero e pânico, era para eles como uma profecia para um futuro longínquo. 

Mas ninguém pensou em nenhuma ameaça vinda do monte Tarawera, situado a catorze quilômetros de Te Wairoa. A sudoeste da montanha havia uma área de atividades termais: gêiseres de água quente, chaminés de vapores e charcos de lama fervente.
O monte Tarawera, porém, com suas três crateras, estava mais tranquilo que a morte.

Mr. Bird, cunhado de McRae chegou à Te Wairoa trazendo uma carga de mercadorias. Naqueles dias todas as mercadorias chegavam em vagões. Entre a carga havia algo para a escola enviada por Sr. E. Adams, que havia estado com os inspetores algumas semanas antes. Quando deste encontro haviam conversado sobre um novo explosivo. Entre o conteúdo da caixa havia um pedaço que, desde a sua aparência exterior, julgaram ser este explosivo, e, em consequência, trataram a caixa com muito cuidado, colocaram-na em um grande vaso de barro, sendo deixado na casa de lavagem, separado da habitação principal, a casa dos Haszards. 

***


Era uma noite fria e clara de lua cheia. Na verdade, houve uma ocultação de Marte pela Lua às 10h30 naquela noite. Não havia vento.

Na casa dos Haszards todos tinham ido para a cama às 23h

Por volta das 00h30 do dia nove de julho, uma série de tremores de terra sacudiu Te Wairoa, aumentando de intensidade na hora seguinte. 

Durante as três horas subsequentes, porém, as três crateras do monte Tarawera entrariam em erupção.

As pessoas despertaram pela agitação violenta da terra. Lá fora, o céu foi iluminado por relâmpagos.

Os terremotos foram sentidos em toda a Ilha do Norte. Residentes de Auckland, a duzentos e seis quilômetros de distância de Te Wairoa, confundiram o barulho com tiros de canhão distantes.

Às 1h15, Clara acordou com o barulho. Ao vê-la o professor Charles lhe perguntou – “Você sentiu o terremoto?”.

“Sim” – respondeu a filha.

Passou-se um grande período de tempo. Mr. Blythe também foi acordado pelo barulho.

No centro de uma região termal, tremores de terra, mesmo violentos, são “coisa normal”. 

Na casa estavam Sr. Haszard, o professor da escola, Sra. Haszard, suas quatro filhas, um filho, um sobrinho, os inspetores Harris Lundius e J.C. Blythe, e a mulher chamada Velha Maria Maori, criada da família Haszard. 
Estavam todos reunidos em um pequeno prédio perto da residência principal, que continha uma grande sala de estar e dois quartos.

A princípio não sabiam exatamente o que estava acontecendo do lado de fora, com exceção tremores de terra contínuos e um barulho terrível. Então veio uma queda de algum material sólido no telhado. 
Um grande pedaço de ferro, arremessado pelo vento, atravessou a parede e passou por um quadro pendurado na parede. 
Clara foi para a sala de estar, pensando ser esta a parte mais segura do edifício, por ter sido construído de ferro corrugado. 

Foi então que o Sr. Haszard pensou que seria melhor sua esposa e as crianças se sentarem no meio da sala, logo abaixo do cume. Lundius estava de pé na janela, o tempo todo tentando ver o que estava acontecendo do lado de fora, mas ele não conseguia ver nada. A escuridão era tão grande que se pode senti-la. 
Eles acenderam o fogo no fogão.

A Sra. Haszard se sentou no meio da sala, com todas as crianças ao seu redor. Clara e sua irmã Ina se revezavam tocando a harmônica enquanto a mãe cantava hinos religiosos. A Sra. Haszard se levantou e se inclinou para olhar para a parte inferior da porta, quando o teto fez um barulho. 

O professor Charles, Harris Lundius e J.C, Blythe olhavam pela janela. Agora era como ver a um grande lençol de fogo.
Havia uma grande nuvem negra pairando sobre Tarawera, com raios e bolas de fogo.

Prof. Charles disse – “É uma visão incrível, lá fora!” e foi para a varanda.