quinta-feira, 10 de julho de 2014

Noite Maldita 4 - cap 6




Capítulo Final

Ray passou a morar com Gina, que estava radiante em tê-lo consigo.
Certa vez, enquanto Ray estava fora, pelo que se sabia em serviço, Irene perguntou a Gina sobre ele.

“Você sabe onde ele faz segurança? Alguma vez já foi ao serviço dele, Gina?”

“Não, mas por que você tá perguntando isso, Irene? Você acha que pode ter alguma mulher que dê em cima dele no serviço?”

“Não é isso, Gina, é que... Ah, deixa pra lá... É só que... Diga-me, você me disse, faz tempo, quando vocês estavam começando a se relacionarem, que Ray é do interior, não foi?” – Irene mantinha baixo o tom da voz, enquanto conversava, vigiando se Melinda escutaria.

“Tá, e o que isso tem a ver?”

“Só me diz... Você sabe de que cidade no interior o Ray veio?”

“Não, realmente, ele nunca me disse... Só que havia se mudado para cá recentemente... Na verdade, acho que perguntei sim... Acho que ele disse algo sobre ser da região litorânea... Acho que... Mas aonde você quer chegar, Irene? Acha que ele pode estar escondendo algo, tipo ter uma família? Ser casado e com filhos lá na cidade dele? Ah, isso seria bem típico dos homens!”

“Nada, não quero chegar a lugar nenhum... É... Nada! Besteira, só... Deixa pra lá, Gina!”

O assunto foi abandonado. Gina deixou a conversa acreditando que Irene tinha dificuldade em simplesmente aceitar que alguém pudesse estar feliz em um relacionamento, e, portanto, queria ver problemas, procurar por eles – a pobre não teria se recuperado da perda do marido Bryan.
Irene deixou a conversa convencida de que Ray era alguém ligado à Maldição de Little Town, e que se aproximara de Gina, apenas para vigiar Damon de perto – Pobre Gina!

***

Irene passou a viver em constante agonia. Não conseguia descansar durante a noite, tendo poucas horas de sono leve, acordando com qualquer ruído, temia que a qualquer momento intentassem sequestrar Damon.
As horas no trabalho eram ainda mais agoniantes. Toda vez que deixava sua casa, olhava para Damon, temendo que aquela pudesse ser a última vez que o veria. Não conseguia manter a concentração durante o expediente, só conseguindo pensar sobre a chamada Maldição de Little Town.
Ela estava propensa a crer que Damon talvez fosse, de fato, uma criança predestinada a algo terrível. Se não o fosse, havia um grupo de pessoas que criam que fosse, e que não esperariam muito para arrancar-lhe o filho, uma vez que o próximo ano seria mais um décimo terceiro ano. Fosse como fosse, ela amava e continuaria a amar o filho, e teria que fazer algo se quisesse tê-lo consigo.

Certa tarde o patrão de Irene a chamou para conversar. Perguntou-lhe se estava passando por problemas pessoais, uma vez que ela, sempre muito boa funcionária, se tornara completamente improdutiva e distante durante o trabalho. Ofereceu-lhe a possibilidade de tirar alguns dias de folga. – Irene recusou, imaginando que qualquer mudança em sua rotina despertaria a desconfiança daqueles que a cercavam com a intenção de vigiar a Damon.

Irene concluiu que precisava fugir logo com o filho, no entanto, qualquer gesto que Melinda ou Ray pudessem identificar como uma preparação para uma partida, poderia resultar em uma reação destes sentinelas. Decidiu que partiria na manhã seguinte, sob o pretexto de levar o filho ao dentista. Partiriam para sempre e recomeçaria a vida o mais longe possível dali.

O erro de Irene, entretanto, foi esperar até a manhã seguinte.

***

Naquela noite, Irene acordou de seu sono de vigília ao ouvir leves ruídos e sons que pareciam ser passos vindos da sala. Levantou-se e foi até lá verificar. Em lá chegando, se apavorou com o que encontrou. O velho encapuzado havia invadido seu apartamento, e empunhava uma estranha e longa adaga. Ao vê-la, o invasor disse:

“Não quero te fazer mal, mulher. No entanto a criança maldita não pode viver! Saia do caminho, e me permita fazer o que tem que ser feito!”.

Irene avançou contra o encapuzado, agarrando-se à adaga, e iniciou luta corporal com o invasor.

No apartamento de Gina, Ray acordou.

“Parece que tá acontecendo algo na casa da Irene!” – disse Ray, já se levantando, e prendendo um revolver nas calças às costas e se dirigiu apressadamente para o apartamento de Irene.

“Tome cuidado, Ray! Pode ser perigoso!” – Gina gritou para o namorado, que a essa altura já chegava à sala do apartamento da mãe de Damon.

Damon acordou com o barulho da confusão, se levantou, e se dirigiu à sala.

Ray saltou sobre os combatentes, dominando facilmente o encapuzado. Irene caiu no chão, segurando a adaga.
Maior e mais forte, Ray mantinha o invasor sob seu domínio.
Ao ver Damon, Irene, aliviada da aflição da tentativa do encapuzado de tirar a vida de seu filho, e ainda segurando a adaga, correu em direção a Damon.
Mas antes que alguém pudesse fazer ou dizer algo, Melinda, que chegava correndo à sala, agarrou Irene por trás e enfiou-lhe um facão na barriga, soltando a mãe de Damon no chão, ou perceber que a abatera. E sorriu triunfante.

Damon assistiu surpreso à cena de Irene sangrando mortalmente no chão.

“Por que diabos você fez isso a essa mulher?” – Damon perguntou à Melinda.

“Mestre, ela correu com a adaga para lhe matar! Eu vi o histórico de pesquisas no computador dela, ela andou pesquisando sobre o senhor e sobre a maldição! Ela não estava com o velho que Ray dominou?” – respondeu Melinda.

Damon olhou para Irene, que com sangue na boca e já em agonia, respondeu:

“Eu corri para abraça-lo, filho. Tive muito medo pela sua vida...”.

O espírito vivente em Damon se compadeceu de Irene – um sentimento que não experimentava há muitos séculos.
Damon se abaixou e, acariciando Irene no rosto disse:

“Muito obrigado pelo amor e dedicação a mim... mãe”.

“Quem é você de verdade, Damon?”

“Eu sou o Feitor da Antiga Fazenda, aquele que há muito se converteu no Espírito Maldito”.

Irene, então, deu seu último suspiro.

Damon, calmamente apanhou a adaga e disse ao namorado de Gina:

“Coloque o velho bruxo de joelhos!”.

Ray forçou o encapuzado a se ajoelhar e o segurava pelos braços torcidos para trás.

“Demônio!” – bradou o encapuzado.

“Você está como toda Little Town, ajoelhado para mim, Cowley (vide “Noite Maldita 3”)” – disse Damon, chamando-o pelo nome.

“Está feliz pela morte dessa mulher inocente? Você mesmo a teria matado se tivesse conseguido, não é? Para tentar me assassinar” – Damon perguntou, se referindo à Irene.

“Seria uma vítima inocente, mas salvaria milhares de outras vidas inocentes” – respondeu Cowley.

“Curioso! Já ouvi gente sua dizer que vidas não podem ser tratadas como números, que não se pode fazer o bem através de um assassinato e críticas sobre os antigos moradores de Little Town me entregarem algumas vítimas a cada treze anos para evitar um número muito maior de mortes! Acontece que nos tornamos muito parecidos com o que odiamos, Cowley”.

“Você pode estar triunfando agora, Feitor. Mas chegará o dia em que você e todas as hordas do Inferno perecerão!” – Cowley, irado, respondeu.

“Cuidado com o tom, bruxo! Você não está em vantagem! Pensa, por acaso, que eu não sei o que estou segurando?” – Damon respondeu, se referindo à adaga. E prosseguiu – “É magia estrusca, magia que você usou para invadir este lugar sem ser percebido pelos meus sentinelas... Eu já eliminei Glaxton, e meu “papai” Bryan... O que Glaxton viu na bacia batismal foi quem eu realmente sou... Só lamento por não ter podido avisar pessoalmente a Bryan que ele gerara minha reencarnação... Mas a essa altura, lá no Inferno, ele já o sabe...” e se dirigindo à Melinda ordenou – “Abra as cortinas!” voltando-se a Cowley – “Olha só! A lua está bem de frente para as janelas! Foi por isso que escolheu essa hora, bruxo? Se, sob a luz da Lua, essa adaga for cravada no coração, mata-se, não só o corpo, como também o espírito da vítima. Você queria desintegrar meu espírito, não é velho? Não foi capaz de ler em seus relâmpagos de quem seria no final disso o espírito a ser extinguido?”

Cowley suava frio em profunda agonia, sabia que o Feitor não hesitaria.

“Estou lhe fazendo um favor, velho. O inferno pode ser bem pior do que deixar de existir... Isso me deixa curioso! A inexistência, a morte depois da morte! A Lua está bonita hoje, não está? Olhe-a pela última vez na existência de seu espírito, bruxo!”

Dizendo isso, Damon cravou a adaga no coração de Cowley. O coração do bruxo explodiu formando uma nuvem de luz, que em seguida se dissipou.

Ray soltou o corpo do velho no chão.
Damon olhou para Melinda e disse:

“Você demonstrou ser muito estúpida, matando por nada, minha progenitora nesta encarnação” e em seguida, se dirigindo ao namorado de Gina, ordenou – “Mate-a”.

Ray sacou o revolver que trazia às costas, e Melinda, aos prantos e ajoelhada, implorou inutilmente. Melinda caiu morta ao receber um tiro no peito.

Ao ouvir o tiro, Gina, que se mantinha aflita todo esse tempo, desesperada de preocupação com o namorado e com Irene e Damon, correu para a casa de Irene. Chegando à porta viu os corpos.

“Meu Deus, o que aconteceu aqui, Ray?” – Gina perguntou.

“Dylan, a “tia Gina” é uma testemunha inconveniente” – Damon disse, chamando o namorado de Gina por seu verdadeiro nome.

“Dylan? Seu nome não é Ray? Como Damon sabe? Você tem me enganado todo esse tempo?” – perguntou Gina com lágrimas nos olhos.

“Sinto muito, Gina” – Dylan respondeu, e em seguida disparou a arma, matando Gina.

“Nunca gostei dela!” – comentou Damon.

“Que bela bagunça isso aqui ficou! Limpe seu revolver, depois, usando luvas, coloque-o na mão do bruxo e dispare, para deixar um pouco de pólvora na mão dele... Vamos fazer parecer foi tudo uma tentativa de roubo do velho. Você chegou aqui depois e me encontrou escondido com medo no quarto... A polícia nem se dará ao trabalho de investigar muito o ocorrido...” – disse Damon.

“Sim, senhor Feitor” – Dylan respondeu.

O demônio olhou para o corpo de Irene e disse “Me chame de ‘Damon’, ela escolheu esse nome”.

Dylan procedeu como o instruíra Damon, levando-o à Polícia, que o encaminhou para o Serviço Social.

***

“Acredito que o estilo de vida do interior fará muito bem ao pequeno Damon!” – comentou com satisfação, o agente social ao concluir o processo de adoção, requisitado por um abastado casal sem filhos de Little Town.

O agente social pediu que trouxessem Damon, e o apresentou aos pais adotivos.
Damon fitou o casal por um instante... e sorriu.



3 comentários:

  1. Que tragédia!!!!!!!!!!!!!
    Levei muito susto e fiquei arrepiada com esse desenrolar...mas coitado do casal que adotou Damon!!!!!
    Muito bom seu conto!!!!
    Bravo!!!!
    os bruxos existem?
    Estão entre nós?
    bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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  2. Lembra um pouco o filme A profecia.
    Show!

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