terça-feira, 1 de setembro de 2015

Estranho e Extraordinário



Os Mortos Falam - parte 2

Os Mortos dão instruções

Em muitas ocasiões, o Dr. Raudive gravava uma pergunta pedindo às vozes que respondessem. O gravador era posto a funcionar e, após certo tempo, desligado. A fita era então repassada com o som aumentado ao máximo para conhecer a resposta dada.
Outro método, usado pelo Dr. Raudive e que foi ensinado pelas próprias vozes, é o de lentamente procurar no rádio uma onda adequada para as gravações. Assim que esta era encontrada, ouvia-se um sibilante agora! e o Dr. Raudive iniciava as gravações. Ainda hoje as vozes mostram franca preferência por essa forma de gravação, pois dizem que o microfone limita as possibilidades tanto de transmissão quanto de gravação.
Durante as gravações recomenda-se calma no ambiente e concentração por parte dos assistentes. As vozes explicam que a concentração ajuda o processo de gravação e “atrai entidades”. As conversas dispersivas e inúteis não agradam nem tampouco a descrença daqueles que assistem aos trabalhos, pois as ouvimos dizendo que “certas pessoas são inúteis à recepção”. Ouvimos, também, recomendações para que “desenvolvam as energias e as conservem”. Será que esse “desenvolvimento de energias” é equivalente ao desenvolvimento mediúnico?
Elas podem ver o experimentador e os que assistem aos trabalhos. Ouvem o que é dito, e respondem com inteligência às perguntas, mesmo que estas não lhes tenham sido dirigidas diretamente. Distinguem cores, fazem comentários sobre a “bonita cor” do oscilógrafo (é vermelha). Pedem para que as luzes sejam atenuadas, preferem a vermelha, que condiz com o que sabemos ser necessários nas sessões de efeitos físicos – penumbra ou uma luz vermelha fraca. Não gostam que se fume durante os trabalhos, pois se queixam da “neblina”, causada pela fumaça dos cigarros!

Durante a gravação os assistentes nada ouvem, pois as vozes dos mortos são inaudíveis aos ouvidos nus. Mas quando a fita é repassada com o som aumentado escutam-se ruídos rítmicos que se tornam, aos poucos, mais claros e compreensíveis. São “elas” falando e suas vozes lembram as “humanas”, pois têm timbres diferentes, masculinos, femininos e até infantis. Essa enunciação rítmica e a construção das frases recordam as fórmulas mágicas empregadas pelos feiticeiros africanos e mesmo certas línguas secretas. Cada sentença contem palavras de dois a seis idiomas diferentes, mas os vocábulos são encurtados, existem neologismos, faltam artigos, preposições e verbos auxiliares. Além do mais, são estruturadas numa gramática especialíssima.
Ouvindo-as repetidamente, observa-se que existem regras e características decorrentes nas sentenças, que não podem ser atribuídas à simples coincidência; cada voz tem uma forma inalterada de falar e certas singularidades na linguagem, que a identificam com a pessoa que ela diz ser. Essas características transparecem sempre que a voz conversa. Não podemos deixar de lembrar que geralmente conhecemos as vozes dos nossos amigos quando nos telefonam sem que seja preciso que eles se identifiquem. Há um timbre e um modo de falar que são seus. É o que acontece com as vozes.
Outro detalhe interessante é que a maioria das palavras, em cada sentença, está fundamentada na língua que o experimentador melhor conhece. Na Inglaterra elas falam o inglês.
As vozes se identificam pelo nome, profissão ou parentesco com um dos assistentes. O famoso “Jung” deu seu nome e disse que era um “psicólogo”. A irmã do Dr. Raudive identificou-se pelo nome e deu outros detalhes conhecidos pela família. Pessoa que em vida falava o francês, continuou usando muito o francês nas sentenças, lembrando os ouvintes que a conheceram antes de morrer, os fatos ocorridos em vida, na França. Não pode, pois, haver dúvida quanto à sua identidade. Elas dão provas de sua inteligência, pois não só respondem acertadamente como têm o dom da precognição, da retrocognição e conseguem ler os pensamentos dos que estão na sala. Estes são dons paranormais.




Extraído de Revista Planeta - fevereiro de 1974

sábado, 22 de agosto de 2015

Estranho e Extraordinário



Os Mortos Falam - parte 1

O músico sueco, Friedrch Juergenson, desejava registrar o canto dos pássaros. Para isso teria que colocar seu gravador em lugar arborizado e sossegado. Pensou em sua fazenda e foi para lá fazer a primeira experiência com o canto das aves, que fracassou em virtude da intromissão de vozes estranhas e misteriosas falando rapidamente, num ritmo invulgar e usando uma língua curiosa!

O fracasso levou-o a tentar novamente. Tornou a colocar o gravador num lugar considerado ideal para o fim desejado. Mas como da primeira vez, quando foi ouvir o que estava gravado, as vozes tornaram a aparecer.

Como estas vozes apareceram num gravador colocado em lugar ideal para captar somente o canto dos pássaros, solitário e distante do vozerio humano? Ninguém teria estado nas imediações, no entanto, inexplicavelmente, o gravador provara que o silêncio tinha sido relativo: as vozes estavam gravadas na fita.

Intrigado com a repetição do fenômeno, Juergenson decidiu ver se conseguiria decifrar o sentido das frases e, se possível, descobrir de onde vinham e quem as pronunciava.

Logo de início, mostrou que as sentenças continham palavras em diversos idiomas. A primeira ideia de que estas vozes poderiam ter partido de uma transmissora caía por terra, pois nenhum locutor falaria daquela maneira. Pelos mesmos motivos não podiam ser as vozes dos vizinhos ou de pessoas que tivessem passado por perto. Sem solução para o enigma, durante três anos, pacientemente, repetiu a experiência. As vozes invariavelmente apareciam nas fitas, sempre falando naquela língua poliglota e peculiar, sempre naquele ritmo estranho. Juergenson estudou criteriosamente o que estava gravado e no fim chegou a uma conclusão surpreendente:
HAVIA GRAVADO AS VOZES DOS MORTOS!

Empolgado com o fato de que as vozes dos mortos poderiam ser ouvidas por meios eletrônicos, sem um intermediário humano, sem médium, Juergenson publicou um livro sobre suas experiências. O livro de Friedrich Juergenson foi sucesso na Europa.

Finalmente caiu nas mãos de um conhecido psicólogo e filosofo católico, Dr. Konstantin Raudive, que, profundamente interessado no que havia lido, procurou o autor para aprender sua técnica de gravar vozes. Com espírito científico, cercou-se de todos os cuidados para não se enganar e, pacientemente, colecionou um fabuloso acervo de 72 mil sentenças. Estas 72 mil frases foram enfeixadas num livro publicado na Alemanha, intitulado Unhorbares Wird Horbar (O Inaudível torna-se Audível).

Se o livro de Juergenson foi um sucesso, o do Dr. Raudive causou furor. Naquela ocasião inaugurou-se a Feira do Livro em Frankfurt e o sócio de uma conhecida editora inglesa, Colin Smythe Lrd., foi visita-la. Ao retirar-se da feira foi abordado por um estanho que colocou um livro em suas mãos. O Sr. Smythe levou o livro para a Inglaterra, mas este ficou na prateleira semiesquecido. Um dia, porém, lembrou-se dele e resolveu dar uma olhadela no livro. Sua primeira impressão não foi das melhores. Disse que teria rejeitado o livro se não tivesse folheado o apêndice, que continha numerosas cartas e comentários de pessoas cuja integridade moral e científica estavam acima de qualquer dúvida!
Apesar destas informações elogiosas, o editor inglês resolveu fazer uma experiência antes de dar sua decisão final sobre a publicação do livro que se intitularia Breakth Rough (expressão idiomática que significa “penetração em áreas desconhecidas”). Comprou algumas fitas e pôs o gravador a funcionar. Ficou surpreso ao ouvir uma voz gravada na fita! Levou o gravador com a fita à sala de seu sócio Sr. Bander e pediu-lhe para que escutasse a gravação. O Sr. Bander, repentinamente, distinguiu uma voz feminina, tênue, mas clara, que dizia em alemão: “Por que você não abre a porta?”. Assim que ele percebeu a voz, reconheceu-a como sendo de sua falecida mãe.
O Sr. Bander repetiu a operação e ouviu a mesma voz, as mesmas palavras. Pediu a dois colegas que não falavam alemão que escrevessem fonema por fonema, o que ouviam. Quando conferiram o resultado ficou provado que o que o Sr. Bander havia ouvido era certo: sua mãe havia falado com ele através do gravador! Este resultado positivo decidiu a sorte do livro do Dr. Raudive: seria traduzido para o inglês.



Extraído de Revista Planeta fevereiro 1974

sábado, 15 de agosto de 2015

Bizarro, Sinistro, Macabro!



Amigo Imaginário


Janaína sempre foi uma criança muito fechada e sozinha. Aos 8 anos, começou a ter um amigo imaginário. Ele era um menino que vivia vestido de preto, mas ela não conseguia ver o rosto dele. Ele falava com a menina, e ela desabafava sobre sua solidão. Era tudo muito real. As conversas aconteciam sempre à noite. No começo, ele mais a ouvia do que falava.
Esse amigo, também participava das brincadeiras que ela queria.
Porém, com o passar do tempo ele começou a falar coisas ruins para a menina. Dizia que ela nunca fora amada pela mãe e que a vontade dela era que a filha morresse.
Essas palavras mexeram muito com Janaína. Embora a menina não tivesse coragem de contar para ninguém de dentro de casa, ela tentou contar para uma coleguinha de escola o que estava acontecendo. A coleguinha, coincidentemente, também tinha tido a mesma experiência e a aconselhou a ficar calma, porque era algo normal, garantindo que quando ela crescesse ele sumiria.
Janaína esperou até os 14 anos, mas ele não sumiu. Pelo contrário, começou a pressioná-la, dizendo que ela deveria ficar com ele. Para isso, ele dizia que ela precisava se matar, mas antes deveria também matar a mãe.
Quando ela se recusava a fazer o que ele pedia, outros “espíritos de crianças” apareciam para humilhá-la, enviados por ele. Era algo assustador.
Um dia, convencida de que ela deveria atender ao pedido de seu amigo, a garota apanhou uma faca e foi até a cama de sua mãe, que estava dormindo. Estava pronta para atacá-la, mas se deu conta da gravidade do ato que estava prestes a cometer, então, saiu correndo de volta para o seu quarto.
Ele não gostou nada dela ter fraquejado. Então começou a dizer que estava na hora dela partir com ele. Foi então que ela usando a faca e tentou cortar os pulsos. Fez força, mas não conseguia chegar ao fim. Desistiu. Ele, na hora, irado, desapareceu.

Depois de tudo isso, ela decidiu buscar ajuda espiritual, pois até na escola ela estava indo mal, porque os espíritos não a deixavam dormir. Procurou uma igreja, onde encontrou apoio e depois de dois anos o suposto “amigo” a deixou livre.



Extraído e adaptado de “Folha Universal” edição de 23/11/14.

sábado, 8 de agosto de 2015

Estranho e Extraordinário



Fantasmas no Centro do Rio de Janeiro

Só de entrar em alguns prédios antigos do Centro do Rio, o visitante se sente em uma viagem ao passado. Dentro desses lugares parados no tempo, não são poucas as histórias de arrepiar.
É o caso do Teatro Municipal. Lá funcionários contam casos de aparições do poeta Olavo Bilac, falecido em 1918, que fizera o discurso de inauguração do Municipal em 1909; e de uma ex-bailarina.
– “Eu ouvi as descrições de funcionários. Levei a foto de Olavo Bilac e mostrei a eles, que confirmaram se tratar mesmo do poeta” – conta o historiador Milton Teixeira.
Almir Lacerda, que foi conhecido como “Seu Almir” era um simpático funcionário do teatro que costumava contar histórias de aparições da “Mulher de Branco”, como era chamado o fantasma de uma ex-bailarina. Seu Almir faleceu em 2008, mas a filha dele Sandra lembra os “causos” do pai:
– “Ele falava muito sobre a “Mulher de Branco”, que era loura, alta e branca como cera”.
Seu Almir dizia que soube de antigos funcionários a identidade da “Mulher de Branco”. Ela seria uma bailarina que morreu atropelada em frente ao teatro no dia de sua formatura, em 1958.

Visitantes do além também são vistos no Museu Histórico Nacional. Pelo menos é o que afirmam alguns funcionários. X., que preferiu não revelar o nome, contou o dia em que viu o Barão de Mauá, empresário morto em 1889.
– “Eu costumava bater-papo, de brincadeira, com a Mariana (Mariana de Jesus Batista), mãe do barão, que está num quadro. Num belo dia, olhei para o lado e vi o Barão de Mauá caminhar na minha direção. Saí correndo” – conta, achando certa graça da lembraça.
Funcionários com mais tempo de casa contam histórias sinistras de um calabouço que existia no museu antes dele passar por reformar. Gritos de “Me tira daqui!” eram ouvidos.
– Ali existia o Forte Santiago, onde eram levados escravos para serem punidos. É possível que os gritos venham daí – explica o historiador Milton Teixeira.



Extraído de edição do jornal “Expresso” de 20 de abril de 2009.

sábado, 1 de agosto de 2015

Estranho e Extraordinário



O medo de uma assombração fez uma família mandar demolir uma casa no interior do Rio Grande do Sul. Os moradores, que não quiseram se identificar, contaram que objetos se moviam sem ninguém mexer neles e pedras caíam no telhado e apareciam dentro da casa. Eles também ouviam com frequência barulhos de socos nas paredes. Na residência, vivia um casal com três filhos: um menino de 8 anos e duas meninas, de 11 e 15.
  – Jogavam pedras na casa, parecia uma chuva – relatou o casal.
Assustada, a família chamou a Brigada Militar, que foi ao local e mesmo sem encontrar explicações científicas, registrou a ocorrência.
– Vimos pedras sendo jogadas ou caindo em cima do telhado da casa, nas paredes. O detalhe é que não quebrava a telha. Nas paredes, não ficava sinal nenhum dessas pedras – contou o Sargento João Aquino.
Vizinhos levaram a família para outros locais, como um colégio. Mas diziam que a assombração sempre voltava.
 – Deu para ver vários fenômenos, como pedras aparecendo sem ninguém jogar e objetos dentro da casa se movendo sem ninguém tocar – relatou o agricultor Valdir Antônio Marquioro, que vive perto da “casa assombrada”.
Além das pedras, a filha mais velha do casal começou a apresentar um comportamento estranho.
– Um dia, o espírito levou-a para cima da casa, jogou-a para baixo e quebrou a telha – disse a mãe.
O médium Nelson Júnior Paz foi chamado e disse ter exorcizado a garota.
– Perguntei por que ele estava perturbando aquela menina, o que acontecia. A todo momento, ele dizia que queria a vida dela ou a propriedade de volta.
A família foi atendida pela assistência social do município, e a Federação Espírita do Rio Grande do Sul acompanhou o caso.



A notícia acima foi publicada no jornal “Expresso” no dia 10 de junho de 2014

sábado, 25 de julho de 2015

Histórias de Vampiros



Kiang Shi

Para os chineses, o ser humano tinha uma alma superior – hun, e outra inferior – p’o. Os restos mortais, quando intactos, podiam ser tomados integralmente pela parte baixa do ser. Numa reação alquímica com o sol ou a lua, o cadáver era animado de volta à vida – compreensivelmente, com as piores intenções possíveis.
O Kiang Shi é o “Vampiro Chinês” – tem unhas longas e curvas, cabelo cumprido – Muitos kiang shi possuíam longas cabeleiras esverdeadas ou esbranquiçadas, fruto da ação de fungos nos caixões.
Ao Kiang Shi se aplica uma regra de vários tipos de vampiros – o poder de se tomar outras formas que não a sua original em vida. Podendo incluir uma forma humana feminina!

Na China do século nove surgiram duas noivas exatamente iguais em uma cerimônia de casamento. Uma delas era um kiang shi. A noiva verdadeira, subindo nas tamancas, convidou a impostora para resolverem o assunto numa sala adjunta ao salão principal. Má ideia. Quando as duas entraram no recinto fechado, os convidados ouviram um grito horrendo. Acorrendo ao local, descobriram, para terror geral, a noiva morta ao seu lado um assustador pássaro negro, que, voraz, bebia o seu sangue e bicava as suas vísceras.



Extraído de “Super Interessante”, Agosto de 2006

Agora a informação divertida: Para deter um kiang shi, basta um monte de arroz: o vampiro se vê obrigado a contar todos os grãos.

sábado, 18 de julho de 2015

Histórias de Vampiros




Morto duas vezes

O abade Calmet – autor de Dissertations sur les Apparitions des Esprits et sur les Vampires, editado em 1749, abundantemente citado – escreveu também uma enorme História Universal e outras obras importantes. Mas a sua fama se deve mais às crônicas sobre vampiros, através de episódios isolados. Incluía aí divagações médicas, religiosas e filosóficas. Por exemplo, a história do pastor de Blow, na Boêmia (antiga Checoslováquia). Depois de morto, reapareceu e mordeu oito pessoas, que morreram em seguida. Os habitantes da aldeia o desenterraram e o atravessaram com uma lança pontiaguda, mas o vampiro ria e escarnecia dos cidadãos. Resolveram queimá-lo na fogueira, e levaram-no até o local numa carreta. Durante o percurso, o cadáver urrou e se debateu. Novamente traspassado, esvaiu-se numa poça de sangue, antes que o fogo o queimasse totalmente.

Calmet dizia ter sido pessoalmente testemunha de algumas manifestações vampíricas, e de outras havia recolhido testemunhos que ele considerava válidos.



Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 11 de julho de 2015

Histórias de Vampiros



Mamãe Morte

Há muitos anos vivia em Praga, Antiga Checoslováquia, uma mulher que em sua juventude amou um vampiro. Daquela funesta paixão nasceu um totenkind, um filho de tumba. Quando jovem, Petra Vucek era muito bela. Muitos a cortejavam e ela conheceu seu amado durante uma festa ao ar livre. Decidiu que aquele devia ser seu homem. Mas ficou horrorizada quando foi mordida pela primeira vez.
Não poderia fazer outra coisa que abandonar o rapaz. E o fez. Mas já tinha dentro de si a semente de um outro terror, um mal vourdalek ou, para usar a expressão eslava mais comum, um vampirevich – filho de vampiro. Karel Vucek cresceu com sua mãe, que trabalhava para mantê-lo. Parecia um garoto normal, mas Petra sabia que não era verdade e esperava, com angústia, que ele se manifestasse. Passaram-se anos de agonia, antes que o garoto ameaçasse morder. Foi uma menina da mesma idade que Karel, a vítima. Quando Petra soube do fato, não disse nada ao menino. Experimentou quase uma sensação de alívio: finalmente a espera acabara.
Num domingo de agosto, vestiu o filho com a roupinha mais bonita e o levou fora da cidade, numa localidade acima do rio Vltava, muito conhecida dos namorados pelos passeios de barco. Petra alugou um barco.
Quando voltou à margem estava só. Não procurou esconder seu crime, foi presa. Ficou 20 anos na cadeia. No fim da vida, era uma velhinha como tantas outras, mas lembrava bem a sua história e não hesitava em conta-la. Só uma coisa a perturbava: o apelido que lhe deram no bairro onde vivera e que os moleques lhe gritavam: mamãe morte.



Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 4 de julho de 2015

Histórias de Vampiros



A Vingança do Assassinado

Na pequena República de Andorra, quando alguém é assassinado (o que se dá em média uma vez em cada 20 anos), segundo um cerimonial que permanece invariável desde 1200, o magistrado, de toga e capelo, vai até o lugar do delito, seja onde for. Lá dirige-se ao morto, perguntando-lhe três vezes: “Homem, quem te matou? A Justiça o exige”. Ao fim, diz: “O morto não respondeu”.
Até hoje não se sabe qual a origem desse estranho procedimento. Mas o seu mecanismo parece nos revelar que talvez os juízes de Andorra esperem que pelo menos uma vez o morto responda à pergunta.
Em fins do século retrasado houve em Andorra um assassinato. O crime fora praticado com uma pedra e o morto era um pastor de ovelhas. A vítima não apresentava um belo espetáculo aos olhos, com a cabeça esmigalhada. Naturalmente, o morto não estava em condições de responder à pergunta do juiz, que não a fez.
Mas ele morreu odiando, e a lei dos vampiros lhe dava uma possibilidade de retorno.
(Um dos componentes que facilitam o fenômeno vampírico é o ódio. Os homens que tomam conta dos velhos castelos ingleses dizem que os fantasmas são sempre almas de defuntos que em vida odiaram e foram odiados. A regra não varia para os vampiros).
Acontece que o culpado estava numa hospedaria, conversando sobre o misterioso crime, quando viu entrar no estabelecimento um homem que tinha na testa uma lama negra.
Os presentes fugiram e o assassino também, mais depressa do que eles. Mas não se pode fugir de um vampiro.
Os corpos desses seres não respeitam as unidades de tempo e espaço. Na sua desesperada fuga, o matador encontrou-se frente a frente com sua vítima. O terror obriga-o a implorar por misericórdia. Cai de joelhos e continua a gritar, até que uma pedra enorme lhe quebra o crânio. Foram encontrados juntos, num local onde um dos dois não deveria estar.



Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 27 de junho de 2015

Histórias de Vampiros



Vampiro polonês.

Um cidadão de Varsóvia chamado Jan Rzelaw tombou sob o pelotão de fuzilamento nazista em agosto de 1944 – Jan havia participado de uma revolta contra a invasão alemã à Polônia.
Quase dez anos depois um ex-suboficial do Exército alemão, voltando à vida civil na pequena cidade de Damme, na Alemanha Oriental, enforcou-se numa garagem. Deixou uma longa carta na qual explicava como o homem que ele havia fuzilado por rebelião vinha procura-lo e pedir vida. O suicida tinha um pulso enfaixado. Sob a gaze, existia o evidente sinal de uma feroz mordida.


Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 20 de junho de 2015

Histórias de Vampiros



Um morto bem conservado

A fama do médico parisiense Trousseau – na metade do século retrasado – era tanta que lhe permitia cobrar 25 mil francos por consulta domiciliar.
Trousseau gostava de observar que a matéria viva se distingue da morta por certas manifestações características que só ela possui.

Mas em uma talvez apressada classificação, Trousseau não teve meios de incluir um tal Lesahor, paciente um pouco fora de série. Depois de um longo infrutífero tratamento hepático, o médico decretou que Lesahor falecera. A mulher do morto, que era doente cardíaca, ficou ignorante do falecimento do marido. Não suspeitou de nada, sobretudo porque o homem continuou a fazer-lhe visitas, para cumprimenta-la. Trousseau, que também tratava da mulher, soube disso pelas suas próprias palavras. Quis ver o fato com seus próprios olhos. Naquela noite se encontrava no quarto da senhora Lesahor na hora da visita, e teve o prazer e ao mesmo tempo a angústia de ver que seu ex-paciente não estava tão morto assim. Movia-se sem dificuldade, conversava com a mulher. Trousseau quis dirigir-lhe a palavra, mas o homem se despediu, dizendo que tinha muita pressa.
A razão da pressa, Trousseau descobriu na manhã seguinte, quando, com autorização oficial, pode dar uma olhada na sepultura de Lesahor. O morto estava em seu lugar e tinha um aspecto “excepcionalmente bem conservado”.
A mulher morreu poucos dias depois. Sua morte foi provocada por uma anemia de origem misteriosa. Trousseau fez um relatório pormenorizado do caso, mas o assunto não “despertou muita atenção” e foi arquivado. Afirmou-se posteriormente que o médico, com aquilo, queria arranjar publicidade.



Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 13 de junho de 2015

Histórias de Vampiros



O Vampiro de Susak

Há cerca de 70 anos, em Susak, uma ilha de areia do Adriático, contava-se um caso curioso. Os habitantes, pelos escassos contatos com o continente, conservaram, através dos séculos, os hábitos, costumes, tradições.
O filho de uma mulher da ilha foi morto nos últimos dias da guerra. Agonizou por uma noite inteira, sem que ninguém fosse socorrê-lo. Morreu ao amanhecer, pouco depois de o encontrarem, e as últimas palavras foram uma desesperada invocação: “Quero viver, viver”.
Enterram-no na colina arenosa de Susak. Mas ele voltou, porque sua vontade de existir era mais forte do que a própria morte. Voltou para buscar o sangue que havia perdido, como fazem frequentemente os vampiros, cujo instinto é um misto de agressão e amor. E voltou-se para quem amava mais: a mãe. No momento de sua reaparição, a mulher toma consciência do que devia fazer. Ora, o vampiro, segundo a tradição, é sempre um ser infeliz, prisioneiro de seu instinto de vida. Um morto que agoniza, procurando inutilmente ressuscitar.
Em casos semelhantes, devem-se afastar os sentimentos, para o próprio bem do “doente”. Deve-se fazê-lo voltar à paz. A força que move aquele pobre corpo atormentado não é uma alma, mas uma mecânica de terror. E a mulher não teve dúvida. Confiou a um irmão, dois cunhados e outro filho a destruição daquela coisa que a chamava de mamãe.



Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 6 de junho de 2015

Histórias de Vampiros



Mikonos

Na Grécia existe uma pequena ilha. Chama-se Mikonos. Uma cordilheira, um esporão de rocha granítica, escassa de vegetação. Esteve em poder dos turcos durante vários séculos. Mas em 1821 os seus habitantes fizeram um levante armado, lutaram pela independência e ganharam. Ali existe um pequeno cemitério onde se podem encontrar as sepulturas daqueles que tombaram pela liberdade. Ainda hoje são depositadas flores sobre os túmulos dos heróis mortos.
Mas há um outro cemitério na ilha. Um pequeno terreno atrás das rochas, onde os túmulos não têm nome nem cruz. Quem são aqueles mortos? A resposta está gravada numa placa na entrada do cemitério: “1700-1702 – Aqui jazem criaturas que não são deste mundo”.
Como indicam as duas datas, por três anos a ilha de Mikonos viveu no terror. E o medo ainda persiste através dos séculos, pois ninguém ousa arar o campo maldito.
Existe uma lenda segundo a qual ali estavam sepultados os gigantes, mortos por Hércules. Mas não é daqueles mortos que os habitantes tinham medo. Em 1701, o escritor francês Joseph Pitton de Tournefort se encontrava em Mikonos e foi testemunha da “grande epidemia vampírica”.
Escreve Tournefort: “A loucura parecia ter penetrado em todas as mentes. Era uma autêntica epidemia, como a raiva ou a peste. Famílias inteiras abandonavam suas casas e iam viver nos campos ou nos bosques. Todos se lamentavam do contato com os vampiros. Cada um ostentava, quase com orgulho, as marcas rubras das mordidas. Ao cair das trevas, todos se abandonavam aos lamentos, aterrorizados ante a ideia da noite que caía. Os vampiros: esse era o medo de Mikonos. E os sinais das mordidas apareciam realmente. Nos seios das mulheres, no pescoço dos homens. E todos experimentavam uma terrível exaustão. Muitos, depois de algum tempo – antes fortes e robustos –, morriam. E cada morto era um novo vampiro”.

Em três anos houve centenas de mortos em Mikonos, se bem que se combatesse a epidemia com “todos os meios úteis”.
Os “meios úteis” que eles conheciam eram o alho, a lança de madeira pontiaguda e a luz do sol. O alho, pendurado na porta das casas, impedia os vampiros de se acercarem delas. A lança, construída com madeira de freixo, matava-os. A luz do sol destruía o seu simulacro humano, restituindo-os à poeira do tempo.
Mas não existiam freixos na ilha e era necessário mandar os pescadores até as ilhas maiores – Creta e Delos –, para arranjar a madeira necessária à fabricação das lanças. Durante o dia, nas casas miseráveis, homens e mulheres preparavam as armas. Depois, quase no crepúsculo, antes que eles ressurgissem, os mais corajosos chegavam ao cemitério e escavavam as sepulturas.
Era fácil identifica-los. A culpa estava estampada nos seus rostos gordos e corados, sobre os seus lábios ainda úmidos de sangue. Então as lanças os traspassavam, aniquilando-os por toda a eternidade.
Toda vítima de um vampiro se transformava por sua vez em vampiro e devia ser tratada do mesmo modo, para impedir que ressurgisse da tumba e viesse atormentar os vivos, exigindo o sangue que havia perdido.
Pitton de Tournefort narra como via os corpos serem transportados ao cemitério maldito, atrás das rochas. Mas nem sempre sobrava alguma coisa. Os vampiros mais antigos, libertados da maldição, dissolviam-se no pó.
Collin de Plancy, em 1818, assim descreve os vampiros em seu Dictionnaire Infernal: “Desde tempos remotíssimos tem-se dado o nome de upires, vampiros, no Ocidente, de brucolakhi, no Oriente Médio, de katakhanes na Índia, aos homens mortos e sepultados que retornam, em corpo e alma. Falando, caminhando, amedontrando as vilas, sugando o sangue do próximo, tornando-o fraco e causando a sua morte. Quem morre por causa de um vampiro torna-se também vampiro. Não há como livrar-se das visitas perigosas desses monstros senão matando-os com lanças pontudas de madeira.



Extraído da edição de setembro de 1973 da revista Planeta.

sábado, 30 de maio de 2015

Estranho e Extraordinário




Ele voltou de uma sessão de cinema, que fora com primos. Despediu-se da prima e do primo e foi para um bar, onde todas as noites encontrava alguns amigos. A visita ao bar foi rápida – apenas para manter o costume – e antes da uma hora ele já estava em casa: um prédio de apartamentos novo, recém-inaugurado. Estava completamente lúcido, pois não costumava beber em demasia. Chamou o elevador que estava parado no terceiro andar e esperou. Nada. Tornou a chamar com certa impaciência. Nada. Como ele morava no quinto andar, resolveu subir as escadas. Àquela hora da noite ninguém mais estava acordado para ficar segurando a porta de um elevador. Imaginou que a porta não tinha sido bem fechada e por isso ele não saía do lugar. Achou curioso que as luzes do terceiro andar estivessem apagadas. Isso não chegava a incomodar, pois uma certa claridade vinha do segundo e do quarto andares. Quando chegou perto do elevador para verificar se o problema era realmente a porta mal fechada, percebeu que um vulto se aproximava. Abriu a porta do elevador e acendeu um fósforo (a luz do elevador também estava apagada). O vulto já estava bem perto dele, mas não era um morador do prédio, como tinha pensado. Não era sequer um mortal, pois não tinha rosto. Com a rapidez do pensamento ele desceu as escadas e foi parar – quase sem fôlego – na calçada. E coragem para voltar? Voltou. Tinha que voltar. E nada aconteceu. Já em casa contou tudo aos seus pais que resolveram investigar o caso. Ficaram sabendo então que quando o prédio estava sendo construído, um operário tinha se enforcado justamente no terceiro andar.



Caso enviado à redação da revista Planeta por leitor e publicado na coluna ‘Casos Malditos’ da edição de Junho de 1974.

sábado, 23 de maio de 2015

Estranho e Extraordinário



Foi há mais de quarenta anos, em um bairro afastado da cidade de São Carlos. Estavam três amigos conversando calmamente na varada da casa do Sr. Antônio, que ficava próxima a um pequeno vale, de 50 metros de profundidade. A casa ficava bem isolada e o vale era completamente desabitado. A noite era clara e morna. Eram mais ou menos dez horas, quando perceberam um facho de luz sobre o vale. Era uma luz estranha, um facho curvo, como um arco-íris. Em um dos pontos, onde a luz tocava o solo, surgiu uma casa rustica. Os três amigos saíram da varanda e tentaram se aproximar do local o mais que podiam. Viram então que a casa era habitada. Para o espanto de todos, um homem surgiu na janela da casa. Tudo indicava ser um homem. O único detalhe destoante era sua cabeça – enorme. Sobre a cabeça um chapéu. Esse homem olhava atentamente para fora, como se procurasse alguém. Silenciosamente, a casa desapareceu como a imagem de um vídeo. Alguns minutos depois, a luz também desapareceu. O vale ficou novamente escuro, e os amigos se afastaram discutindo o caso. Como não chegaram a conclusão alguma, o Sr. Antônio resolveu voltar ao local na manhã seguinte. Nenhum sinal, Nenhuma casa podia ter estado ali, pois o terreno é muito acidentado. Mas todos eles juram tê-la visto.

Extraído de Revista Planeta, coluna “Casos Malditos” junho de 1974.

sábado, 16 de maio de 2015

Estranho e Extraordinário



Foi a 19 de fevereiro de 1969. Ana Renó estava em estado de coma, com câncer generalizado. Ela vivia com sua filha, Maria Apparecida, e sempre mostrou grande medo da morte. Seu maior desejo era morrer dormindo. Naquela madrugada – como sempre – Maria Apparecida dormia com o marido no sofá da sala, de onde podia ver a mãe no leito e dar-lhe a devida assistência. Ela já estava dormindo há um bom tempo quando acordou e viu a mãe perto do sofá. Ela era visível apenas da cintura para cima. Estava sustentada por alguém que Maria Apparecida não conhecia. Ouviu a mãe dizer: “Me larga, me larga”. A pessoa estranha respondeu: “Se nhá Maria larga, sinhá cai”. A moribunda chegou bem perto do sofá, onde Maria Apparecida já estava em pé. Olhou para o genro que dormia profundamente e o confundiu com seu irmão: “Olímpio, Olímpio, devo partir entre domingo e quarta-feira. Por favor, não me deixe sentir a morte”. Sabendo que Ana Renó não podia ficar ali, naquele estado, a filha falou energicamente: “Assim não pode ser, volte já para sua cama”. As duas figuras desapareceram e Maria Apparecida pode ver a mãe dormindo tranquilamente. Ela realmente morreu em uma quarta-feira, dia 10 de março. O estado comatoso não voltou desde aquela madrugada e a mulher não deve ter sofrido, pois morreu placidamente. Maria Apparecida afirma que teve dois contatos com a mãe, após sua morte. O primeiro foi pouco tempo depois da morte: a mãe apareceu para reclamar da sujeira da casa. Estava tudo desarrumado, com objetos pessoais espalhados pela sala e quartos. Mandou que a filha fizesse uma boa limpeza em tudo e que colocasse o que lhe tinha pertencido em vida, em um canto qualquer. Sua segunda visita foi para pedir que a filha visitasse uma tia que estava muito doente. Maria Apparecida foi visita-la e a mulher estava realmente de cama, precisando de ajuda. Depois disso, sua mãe nunca mais apareceu.

Extraído de Revista Planeta, coluna “Casos Malditos” junho de 1974.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Os Sanfoneiros e a Sexta-feira da Paixão.


A história de hoje, um senhor conhecido meu, me contou tê-la ouvido em um programa de rádio nos anos 1960. Achei muito divertida e por isso resolvi contá-la aqui. Mas fique registrada a origem da história.


Era uma sexta-feira santa... Em uma região rural, dois homens percorriam um longo caminho em estrada de terra. Iam buscar uma sanfona, uma vez que a que possuíam havida dado problema, e na noite seguinte, a do sábado de aleluia tocariam em um forró.

Depois que pegaram a sanfona que foram buscar, quando estavam para iniciar o caminho de volta, um dos amigos sugeriu:

“Acho que deveríamos testar a sanfona, compadre! Imagina se não estivar boa! Teríamos que voltar aqui, e não sei se daria tempo antes do forró!”.

“Mas, compadre, hoje é sexta-feira santa e você sabe que não se pode tocar sanfona!”.

“‘Ara’, mas só um acorde, e isso a modo de verificar a sanfona apenas! Não há de ser mal!”.

O homem então tocou um acorde. Os amigos ouviram outra sanfona responder ao longe

“Tá vendo? E isso?”.

“Larga a mão de ser besta deve ser o eco! Bem, ela tá funcionando, vamos seguir nosso caminho de volta, que temos muito o que andar!”.

“Toca de novo! Pra gente ver se é mesmo o eco, ou é outro sanfoneiro aí pelas estradinhas!”.

O sanfoneiro tocou novamente. Dessa vez um acorde com intervalo de sétima – chamado em música de acorde de preparação. Os companheiros ouviram, então, a outra sanfona ao longe responder tocando o acorde maior correspondente ao de preparação.

“Ouviu isso? Não é eco, é outro sanfoneiro por perto!”.

“Ainda não ‘to’ gostando disso! Outro sanfoneiro a essa hora da madrugada numa sexta santa, não acha estranho?”.

“Olha o tanto que é cismado!”.

O sanfoneiro, então, tocou a primeira parte de uma frase musical. A sanfona misteriosa, então, completou a frase. – Mas dessa vez pareceu estar mais próxima

Crendo que o sanfoneiro oculto fosse algum conhecido deles, os companheiros começaram a gostar da brincadeira de tocar e ouvir o outro responder. A cada vez que o sanfoneiro misterioso respondia parecia estar mais perto.

Quando já estavam em frente à porta da casa de um deles, o amigo com a sanfona tocou mais uma frase musical. Dessa vez a outra sanfona soou bem atrás deles.
Ambos os amigos se viraram risonhos e alegres para verem que seria o outro sanfoneiro.
Mas jamais esperavam ver aquilo com se depararam!

Quando os amigos olharam para trás deram de cara com o próprio Demônio e sua forma bizarra. Viram sua face horrenda, seus chifres, o longo rabo, o corpo coberto de pelos negros, os olhos vermelhos como o fogo do Inferno, seus pés de cascos de animal, e ele tinha nas mãos a sanfona com que estivera respondendo aos amigos

Os dois correram apavorados para dentro da casa, implorando ao Senhor que os perdoassem e os livrassem do Cão. E nunca mais ousaram faltar com o respeito com a sexta-feira santa!

O Diabo foi embora rindo bastante.



sexta-feira, 20 de março de 2015

Te Wairoa - cap 9


O último capítulo de Te Wairoa traz um poema escrito por meu caro amigo blogueio, o poeta Samuel Balbinot, autor do blog "Lapidando Versos".
Há também a bibliografia consultada, pois "Te Wairoa" foi baseada em fatos reais.
Espero que o você tenha apreciado a saga e goste do último capítulo!

...beijinhos***





O silêncio costumeiro
Foi rompido pelos gritos...
Na montanha um verdadeiro
Estrondo acendeu os mitos;

O demônio que dormia
Por séculos nesta terra...
Acordou pela magia
Negra a trazer nova guerra;

A coluna de fumaça
Expelida pelo vulcão...
Deixou negrume na praça...
Medrou a população;

Bolas de fogo fatais
Sendo lançadas aos céus;
Lava nas águas termais
Já fazem de todos réus;

Fogo purificador
Para os tantos pecadores...
Queimados vivos no horror
Junto com as mortas flores;

Tamanha foi a explosão
Que romperam-se as crateras...
Dando vazão a erupção
Da lava de tantas eras;

O lago antes cristalino
Foi engolido em segundos...
Revelando tal destino
Escrito por moribundos;

Tantos detritos lançados
Cortando corpos ao meio...
Todos sendo empilhados
No solo de cinzas cheio;

Corpos perdidos na lama...
Isentos de qualquer vida;
Almas que um anjo embalsama
Para a terra prometida;

A ilha toda devastada...
Lama e corpos sem ação;
Uma terra castigada

Pela força de um vulcão;

                                                                                                                Samuel Balbinot


Último Capítulo

A erupção continuou furiosamente até às seis da manhã. Nisto, tão subitamente como havia principiado, a chuva de lama parou.

Cerca de nove horas da manhã, a chuva de lama tornou-se mais leve. O vento, felizmente para eles, mudou para o sul. Pouco depois, Clara e os inspetores viram Joseph McRae, o dono do hotel, e seus cunhados, chegando para ver se alguém havia sobrevivido ao incêndio da escola. Foram todos até as ruínas e encontraram a senhorita Ina Haszard e a velha Maria abrigadas sob alguns móveis no que tinha sido o meu quarto onde estava Lundius. 
Mas não ouviram nenhum som ou indicação de qualquer outra pessoa viva sob os escombros.

Por essa altura todo mundo estava deixando Te Wairoa, indo para Rotorua, o único lugar habitado de mais fácil acesso naquele momento. 

A dor era terrível para as pessoas Tuhourangi e Ngati Rangitihi. Eles perderam membros da família, os seus meios de subsistência e os ossos de seus antepassados em uma noite terrível. 


As irmãs Ina e Clara não queriam partir – tinham ainda esperança de haver mais algum de sua família nos escombros da escola – a princípio se recusaram, acabaram cedendo à persuasão dos demais.
Lundius acreditava que não havia muita chance de mais alguém ser encontrado vivo entre as ruínas, e que não podiam ter certeza se o inferno não recomeçaria com uma nova chuva de lama vulcânica. “Nosso dever está mais para nossas vidas do que para com os mortos” – disse pesaroso. 

As irmãs Haszard e os inspetores decidiram, por fim, seguirem, como os demais sobreviventes para Rotorua.

Quando o grupo, formado pelas irmãs Haszards e os inspetores, saiu de Te Wairoa estava na região de Tikitapu, encontraram, para sua alegria, Ted Robertson que dirigia um bugre. Ted disse ao grupo que Rotorua estava intacta, mas a maioria das pessoas tinha ido para Tauranga ou Oxford (que depois passou a se chamar “Tirau”).

O motorista do bugre levou o grupo de volta para Te Wairoa, e eles começaram a limpar os escombros da casa demolida dos Haszard. Logo Lundius descobriu que o corte que havia sofrido quando quebrou as janelas foi mais grave do que ele pensava, e que não podia fazer muita escavação.

Depois de um tempo, viram uma mão se mover através de uma abertura feita pela escavação, e encontraram a Sra. Haszard viva. Assim que a retiraram dos escombros perceberam que uma de suas pernas estava esmagada. Ela contou que seus filhos estavam todos mortos. Improvisaram uma maca para a senhora.

Lundius descobriu o seu cavalo, que tinha deixado no cercado perto da casa. O cavalo tinha vários centímetros de lama em cima dele, embora não estivesse ferido de alguma forma. 

Lembrou-se do vaso com a caixa no lavadouro. Ao verificar constatou que o lavadouro estava intacto, então abrindo cuidadosamente a caixa descobriu que continha bananas conservadas!

***

Na noite da erupção, um grupo de construtores de estradas estava acampado no lado leste da planície Kaingaroa. Somente Maoris foram empregados Os homens tinham uma boa visão do Monte Tarawera. Eles podiam ver o terrível espetáculo de fogo e da nuvem decorrente da montanha. Um dos maoris pensou que o fim do mundo havia chegado, e que era hora de ele fazer as pazes com o seu Criador, especialmente porque ele tinha sim um passado ruim. O maori orou com fervor e acabou por dizer sinceramente – "Oh Senhor, se você me permitir viver esta noite, eu vou dar-lhe uma libra!”.
Esse Maori sobreviveu, mas não se sabe se ele pagou sua promessa.

***

Mr. Harris Lundius foi convidado pelo Mr. James Stewart, para atuar como guia para uma excursão com a intenção de ir tão perto quanto possível do local da revolta do vulcão. Partiram de Rotorua na manhã de sábado, 12 de Junho. Quando entraram onde antes tinha sido a aldeia Te Wairoa, ouviram de debaixo de um monte, onde concluíram que seria um whare (casa maori) soterrado, os mais angustiantes gritos horripilantes.

Naturalmente, chegaram à conclusão de que alguém foi enterrado lá e apressaram-se a obter alguns implementos para efetuar um resgate. Depois de esforços frenéticos chegamos ao telhado do whare. Quando conseguiram fazer uma abertura, saltou para fora um grande gato preto! 

Esse gato deve ter mais do que sete vidas! – disse Lundius

***

Quando os sessenta e dois sobreviventes saíram da casa de Sophia e dos poucos outros edifícios de Te Wairoa que resistiram à violência daquela noite, até onde a vista alcançava rodeava-os uma total desolação. Cerca de cento e trinta e dois quilômetros quadrados de terreno estavam enterrados sob a lama.



Muito mais tarde, a Guia Sophia se lembrou de que o antigo chefe Rangiheuea tinha oferecido mel coletados em Tarawera para ela. Sabendo que era tapu (proibido), ela recusou. Todos que comeram o mel morreram na erupção, incluindo o jornalista inglês e o chefe Rangiheuea. 


Em algumas áreas as equipes de salvamento trabalharam dentro do lodo cinza-escuro que lhes batia pela cintura. A aldeia maori de Te Akiki, situada a apenas alguns quilômetros da montanha em erupção, tinha desaparecido sob uma camada de lama de dez metros de espessura. Uma outra aldeia, Moura, e seus habitantes nativos, desapareceu da mesma maneira.


Tama arduamente cavou por quatro dias até conseguir achar o whare de Tuhoto Ariki. O bruxo estava vivo, murmurava palavras de magia karakia – Tamaohoi protegeu e poupou seu libertador.
Ariki ter sobrevivido soterrado por quatro dias causou grande espanto nas pessoas.
O bruxo disse que estava no Reinga (mundo espiritual) até ser perturbado pelo feixe de luz. O feiticeiro não pareceu satisfeito por ter sido perturbado. Muitos maoris se sentiram revoltados com a sobrevivência de Ariki.
– Por que não o deixou lá onde estava? – perguntavam a Tama, e diziam que cobri-lo novamente de terra seria o melhor a ser feito.


Dado que a região era tão pouco habitada, o número de mortos pela erupção do Tarawera foi relativamente pequeno: cento e cinquenta e três pessoas. Além da chuva de lama, as cinzas vulcânicas caíram em regiões a duzentos quilômetros de distancia; o território atingido pelas precipitações foi de quinze mil oitocentos e cinquenta quilômetros quadrados, e estimativas calcularam que contivesse mais de mil e quinhentos milhões de metros cúbicos de cinzas.

Se bem que os Terraços Rosa e Branco tenham desaparecido, os turistas afluíram para ver os tempestuosos escapes de vapores e os lagos de lama fervente que brotavam da cavidade onde antes existia o lago Rotomahana. Sete anos depois da erupção, contudo, essa atividade cessou bruscamente. Água fervente começou a jorrar do solo e em duas semanas a área foi submersa. Com o tempo, a água esfriou e hoje existe um novo lago Rotomahana, vinte vezes maior que o antigo, ficando o local dos desaparecidos Terraços Rosa e Branco a cento e cinquenta metros de profundidade.



Sophia – continuou seu trabalho de guia-turística, quando ela se mudou para a vizinha Te Whakarewarewa. Em 1895, ela se juntou a uma Companhia Dramática, excursionando em uma viagem à Austrália. Em 1896 ela foi nomeada zeladora da reserva térmica Whakarewarewa.
Ela incentivou muitas mulheres locais a se tornarem guias-turísticas, ajudando a estabelecer essa ocupação como uma forma lucrativa de emprego para as mulheres da tribo Tuhourangi.
Sophia também se engajou fortemente na União Feminina de Temperança Cristã da Nova Zelândia, tornando-se presidente da filial de Whakarewarewa em 1896.
Sophia morreu em Whakarewarewa em 4 de dezembro 1911.  
Alguns de seus muitos descendentes ainda vivem em Whakarewarewa, e uma rua em Rotorua leva seu nome.

A Sra. Haszard curou-se dos ferimentos e viveu até os oitentas e dois anos.

Clara perdeu o vislumbre por Auckland e cidades grandes e se engajou em perpetuar a memória da Te Wairoa

Tama veio a conhecer uma jovem maori quatro anos mais jovem que ele, por quem veio a se apaixonar e se casaram.

Tuhoto Ariki debilitado precisou ser levado para o hospital de Rotorua, onde foi tratado por médicos e enfermeiros. Mas veio a falecer. Apesar de seus 104 anos de idade os maoris disseram que ele viveria por muitos mais anos, se no hospital não tivessem sido cortados seus cabelos – como todos os maoris sabem é um assunto muito sério cortar os cabelos de um feiticeiro tohunga.


***


A erupção da Montanha Tarawera aconteceu há mais de 100 anos. 
Turistas de todo o mundo ainda visitam a montanha. As pessoas podem até mesmo ser “transportadas para a história da erupção” no Museu de Rotorua, explorando o local escavado da aldeia de Te Wairoa, conhecida hoje como "The Village Buried" (A Vila Enterrada), e conhecer os descendentes dos sobreviventes que vivem em Te Whakarewarewa.



A região antes devastada e coberta de lama está hoje de novo verde e bonita. Arbustos, musgos e pinheiros cresceram e ocultaram a devastação do monte Tarawera, mas não se pode olhar para a montanha sem um arrepio de medo – ou cruzar os belos lagos sem ficar um pouco na expectativa de uma súbita nova aparição de Waka-Wairua - A Canoa-Fantasma. 



Bibliografia consultada

teara.govt.nz
rotoruamuseum.co.nz
paperspast.natlib.govt.nz
elibrarynz.com
nzhistory.net.nz
tatuagem.com.br/maori/cultura-maori
msnucleus.org/
nzetc.victoria.ac.nz/

segunda-feira, 16 de março de 2015

Te Wairoa - cap 8




Capítulo 8

O primeiro pico a entrar em erupção foi o pico Wahanga, mais distante para o norte, por volta das 01h30. Isto foi seguido de pico médio mais elevado e, Ruawahia em seguida.

Tamaohoi, o demônio da montanha, dormiu durante muitos séculos.

Sob a influência do homem branco, a moral da população local diminuiu até que Tamaohoi, invocado por Ariki, pode voltar para punir os pecadores.

Ariki proferiu seus encantamentos mais potentes, a magia fatal do makutu (magia negra maori), invocou Rūaumoko (divindade vulcânica) para punir os pecadores, e libertou Tamaohoi, o demônio da montanha, de seu abismo escuro para seu ato de vingança.

Charles Haszard, sua família e os hóspedes olhavam com admiração em todo o lago em um brilho vermelho. Enquanto observavam, uma nuvem negra e densa subiu acima do brilho, iluminado por uma exibição tremenda de um raio.


Línguas de chamas rugiam nos ares e bolas de fogo rolavam dos picos. Uma enorme coluna de fogo podia ser vista atirando para o ar, formando uma nuvem negra de fumaça e cinzas. Rochas fundidas foram arremessadas para fora do vulcão, caindo no lago com um assobio.

O Lago Tarawera era um espelho de cobre, refletindo a montanha da base à cúpula em um olhar sinistro. Dominando tudo, pendurou a grande cortina de nuvem, sombria e escura. A partir da nuvem, grandes bolas de chamas caiam de vez em quando, descendo com um respingo nas águas do lago.

O violento distúrbio atmosférico criado pelas erupções originou um temporal ao nível do solo, que arrasou uma floresta inteira no vale de Wairoa, a vinte quilômetros da montanha.

Nos primeiros momentos da erupção, poucas pessoas dali compreenderam o perigo potencial que ela representava para suas vidas. A maioria dos habitantes pensou sem dúvida que mesmo a maré de lava seria detida pelos oito quilômetros de largura do lago Tarawera.

Charlez Haszard, diretor da escola local, disse para sua esposa “Nós nunca mais veremos uma cena como esta”. Suas palavras foram tragicamente proféticas.

Às 3h30 da madrugada, formaram-se sob a superfície da terra pressões grandes demais para serem escoadas através das três crateras incandescentes, e, com uma série de explosões que foram ouvidas em Christchurch, a seiscentos e setenta quilômetros de distância. A parte sudoeste da montanha voou pelos ares. Uma fenda de forma triangular rachou uma das crateras de alto a baixo e uma fissura com um quilômetro de largura abriu-se no lago Rotomahana. Numa questão de segundos o lago e os Terraços Rosa e Branco desapareceram, deixando um buraco com aproximadamente dois quilômetros e meio de largura por cem metros de profundidade.


Toda a água do lago de cento e quinze hectares, assim como incontáveis toneladas de lama, foi atirada para os céus e desabou sobre Te Wairoa. A água e a lama foram seguidas por milhões de metros cúbicos de lava expelida do que viria a chamar-se a Fenda de Tarawera.

Uma nuvem negra e densa formou-se sobre as montanhas, mas em Te Wairoa continuou a desconhecer-se qual era sua constituição. Então uma chuva de lava, cinzas e poeira começou a cair. Iniciou-se um pesadelo para os habitantes da cidadezinha.

Um vento forte acompanhado por um barulho ensurdecedor de janelas quebradas.

Às três horas, os que estavam na casa da escola ouviram um barulho como de pedras caindo em cima da casa. O barulho era tão grande que não podiam ouvir um ao outro falar. Mr. Lundius pegou uma das pedras.
A chuva de pedras vulcânicas continuou a cair sobre a casa por cerca de uma hora.
Uma tremenda tempestade de vento começou e, em seguida, o vento desceu pela chaminé, com tal força, que quase os sufocou com a fumaça.

Por volta das quatro horas todos, excetuando os Mrs. Blythe e Lundius, se amontoaram no meio da quarto, acreditando, agora, ser este o lugar mais seguro, pois as paredes estavam esbugalhando e ameaçando vir dentro.
Clara andou até a porta – “Acho que ela não vai aguentar!” Mrs. Blythe e Lundius estavam parados no mesmo lugar, quando de repente houve um enorme estrondo e tudo ficou escuro, o teto caindo em cima deles.

Clara agarrou, instintivamente, de um lado a mão de Mr. Blythe, e de outro a de Mr. Lundius.
Enquanto isso, a lama caía sobre suas cabeças.
Mr. Lundius pulou e socou as janelas, cortando muito a mão. Terminou de rebenta-las com chutes. Lundius saiu pela janela e gritou para Clara – “Saia, Senhorita Haszard”, e ele a puxou para fora. Mr. Blythe saiu em seguida.

Ao estarem em campo aberto foram atingidos nas cabeças e nos corpos por pedaços de detritos. Correram para a porta.

Mr. Blythe queria voltar para dentro da casa, mas Lundius o deteve, temendo que o teto viesse a desabar. O telhado já estava tão curvado para baixo, que não era possível entrar em alguns dos outros quartos. Lundius que abriu a porta e ficou parado lá. Lundius convenceu Clara e Blythe de continuarem na varanda, de modo que se o telhado desabasse tivessem uma chance de escapar das consequências.

Clara estava morrendo de frio, e o Mr. Blythe conseguiu apanhar alguns cobertores para protegê-la do frio.

Os três correram para o jardim. Gritavam na tentativa de ouvir a alguma outra pessoa, mas o barulho era alto demais!
Depois de um curto período de tempo, que para eles parecia uma eternidade, ouviram uma explosão próxima, olhando para trás, descobriram que a casa de onde fugiram estava em chamas.

Um raio havia atingido a escola e provocado o incêndio

Uma parte do edifício explodiu em chamas, foi quando o teto desabou. Charlez Haszard e seu jovem sobrinho foram mortos instantaneamente. Ina e a criada Velha Maria se protegeram sob uma resistente mesa de carvalho. A Sra. Haszard estava sentada no meio da sala, rodeada pelos seus três filhos mais novos, com as idades de dez, seis e quatro anos. Um alto guarda-louça deteve as madeiras e as chapas do teto, impedindo-as de cair sobre o grupo. A Sra. Haszard, porém, ficou presa no chão por uma viga que lhe esmagou uma perna. Impossibilitada de ajudar seus filhos, ali ficou, totalmente, consciente, durante sete horas, enquanto, uma por uma, as três crianças morriam a seu lado, sufocadas pela lama.
Mona, de quatro anos, que estava nos braços da Sra. Haszard, gritava que lhe desse mais espaço, porque o corpo da mãe a apertava contra a viga, mas a lama não a me deixava. A criança acabou esmagada. Adolphus, de dez, disse – “Mamãe, eu quero morrer com você” – e não voltou a falar. A pequena Flora, de seis, morreu pouco depois.


No hotel de McRae, uma das duas hospedarias da aldeia, a princípio a erupção não preocupou muito os doze hóspedes, mas quando a lama, as pedras e as bolas de fogo começaram a amontoar-se no teto, o proprietário, Joseph McRae, começou a ver que estavam em perigo. Era tarde demais para fugir. Uma lama profunda cobria o solo. Nem cavalos nem homens já seriam capazes de atravessar o atoleiro.
Uma hora depois de a erupção ter começado, o teto do hotel desabou com estrondo, esmagando o andar superior. Os andares de baixo aguentaram-se.

“Vamos nos abrigar na sala da recepção!” – McRae levou seus hóspedes para a recém-construída nova sala de recepção.

Na sala de recepção todos se amontoaram no escuro, rezando e acendendo fósforos de vez em quando para examinarem o teto.

Edwin Bainbridge, o jornalista, escreveu em suas anotações – “Estamos sob uma forte chuva vulcânica. Este é o momento mais terrível da minha vida. Eu não posso dizer quando eu posso ser chamado a comparecer diante de nosso bom Deus. Eu sou grato por encontrar forças n’Ele”.

Em pouco tempo este teto começou a mover-se ameaçadoramente.

“Precisamos deixar o hotel! Temos que sair!” – McRae convocou a todos para deixarem o local – Por mais aterrorizante que fosse a perspectiva de enfrentar a torrente de lama e rochas que caía do lado de fora, estava claro que permanecer no hotel significava morte certa.

McRae e seus hóspedes foram para fora. Neste momento a sacada do hotel desabou, esmagando e matando o jornalista inglês Edwin Bainbridge.

Através das trevas infernais os sobreviventes do hotel viram uma luz a trinta metros de distância. Avançando a custo, desesperadamente através do atoleiro, McRae e três dos hóspedes conseguiram chegar à sólida casa da guia Sophia, onde haviam muitas outras pessoas abrigadas – mais de 60 pessoas se abrigaram no whare (casa) de Sophia. Ao contrário de muitos dos edifícios da aldeia sua casa resistiu ao poder destrutivo da erupção, devido ao seu telhado agudo e paredes de madeira reforçadas fortes, típicos de um whare.

Cinco dos turistas, no entanto, tinham ficado para trás, perdidos na escuridão.

McRae, sem hesitar, pôs um xale dobrado sobre a cabeça.

– Preciso voltar, alguns dos que me acompanhavam se perderam! – disse o dono do hotel.

– Não, Mr.McRae, o senhor não pode voltar, morrerá – Sophia exortou o escocês.

– Preciso tentar!

McRae correu de volta para o Inferno, a fim de buscar os que faltavam. Encontrou dois deles abrigados em outra casa, dois outros perdidos na escuridão e um escondido sob uma árvore.

O trio, formado por Clara e os inspetores, se esforçava para encontrar algum abrigo, corriam tropeçando em algumas árvores desenraizadas na escuridão. Enfrentando agora um vento quente e sufocante.
Podendo enxergar, graças à claridade gerada pela escola em chamas, viram que o galinheiro estava em pé, e correram para se abrigarem lá. De onde observavam de lá a escola pegando fogo.

Lundius tomou a precaução de escorar as vigas do galinheiro com algumas madeiras que encontrou lá.

Clara, Lundius e Blythe permaneceram no galinheiro até a luz do dia seguinte.

Durante a noite que passaram no galinheiro Lundius se perguntava o que aconteceria se o fogo se disseminasse até o lavadouro, onde o vaso de barro com a caixa de explosivos foi depositado.

A erupção continuou furiosamente até às seis da manhã. Nisto, tão subitamente como havia principiado, a chuva de lama parou.


quarta-feira, 11 de março de 2015

Te Wairoa - cap 7



Capítulo Sete

Tama encontrou Ariki, sentado serene em seu whare (casa).

“Tohunga, será que eu posso lhe perguntar” – disse o jovem.

“Pergunte e eu lhe responderei – de fato – eu já sei a pergunta que você traz no coração, jovem” – respondeu o feiticeiro – “Você está penoso pela destruição do povoado que virá em breve!”.

“O senhor, tem algo a ver com isso?” – perguntou receoso.

“Os de nossa tribo teem pecado, Tama, e os pecadores precisam ser punidos. Eu os avisei, eu os exortei a se converterem do mau caminho e voltarem a honrar aos antepassados! Você me pergunta se eu tenho algo a ver com isso! A culpa do que está para acontecer é do caminho escolhido pelos de nossa tribo!”.

Tama considerou a resposta do tohunga efusiva, mas se deu por satisfeito e respeitosamente assentiu.

***


Para todos os nativos em Te Wairoa aquilo era uma certeza! 
A aparição de Waka-Wairua, somado ao fato de que mais cedo no mesmo dia as águas do lago subiram de repente em toda sua extensão, era um presságio de desastre, terrível e inevitável.

Contudo, tais fatos não despertaram desespero e pânico, era para eles como uma profecia para um futuro longínquo. 

Mas ninguém pensou em nenhuma ameaça vinda do monte Tarawera, situado a catorze quilômetros de Te Wairoa. A sudoeste da montanha havia uma área de atividades termais: gêiseres de água quente, chaminés de vapores e charcos de lama fervente.
O monte Tarawera, porém, com suas três crateras, estava mais tranquilo que a morte.

Mr. Bird, cunhado de McRae chegou à Te Wairoa trazendo uma carga de mercadorias. Naqueles dias todas as mercadorias chegavam em vagões. Entre a carga havia algo para a escola enviada por Sr. E. Adams, que havia estado com os inspetores algumas semanas antes. Quando deste encontro haviam conversado sobre um novo explosivo. Entre o conteúdo da caixa havia um pedaço que, desde a sua aparência exterior, julgaram ser este explosivo, e, em consequência, trataram a caixa com muito cuidado, colocaram-na em um grande vaso de barro, sendo deixado na casa de lavagem, separado da habitação principal, a casa dos Haszards. 

***


Era uma noite fria e clara de lua cheia. Na verdade, houve uma ocultação de Marte pela Lua às 10h30 naquela noite. Não havia vento.

Na casa dos Haszards todos tinham ido para a cama às 23h

Por volta das 00h30 do dia nove de julho, uma série de tremores de terra sacudiu Te Wairoa, aumentando de intensidade na hora seguinte. 

Durante as três horas subsequentes, porém, as três crateras do monte Tarawera entrariam em erupção.

As pessoas despertaram pela agitação violenta da terra. Lá fora, o céu foi iluminado por relâmpagos.

Os terremotos foram sentidos em toda a Ilha do Norte. Residentes de Auckland, a duzentos e seis quilômetros de distância de Te Wairoa, confundiram o barulho com tiros de canhão distantes.

Às 1h15, Clara acordou com o barulho. Ao vê-la o professor Charles lhe perguntou – “Você sentiu o terremoto?”.

“Sim” – respondeu a filha.

Passou-se um grande período de tempo. Mr. Blythe também foi acordado pelo barulho.

No centro de uma região termal, tremores de terra, mesmo violentos, são “coisa normal”. 

Na casa estavam Sr. Haszard, o professor da escola, Sra. Haszard, suas quatro filhas, um filho, um sobrinho, os inspetores Harris Lundius e J.C. Blythe, e a mulher chamada Velha Maria Maori, criada da família Haszard. 
Estavam todos reunidos em um pequeno prédio perto da residência principal, que continha uma grande sala de estar e dois quartos.

A princípio não sabiam exatamente o que estava acontecendo do lado de fora, com exceção tremores de terra contínuos e um barulho terrível. Então veio uma queda de algum material sólido no telhado. 
Um grande pedaço de ferro, arremessado pelo vento, atravessou a parede e passou por um quadro pendurado na parede. 
Clara foi para a sala de estar, pensando ser esta a parte mais segura do edifício, por ter sido construído de ferro corrugado. 

Foi então que o Sr. Haszard pensou que seria melhor sua esposa e as crianças se sentarem no meio da sala, logo abaixo do cume. Lundius estava de pé na janela, o tempo todo tentando ver o que estava acontecendo do lado de fora, mas ele não conseguia ver nada. A escuridão era tão grande que se pode senti-la. 
Eles acenderam o fogo no fogão.

A Sra. Haszard se sentou no meio da sala, com todas as crianças ao seu redor. Clara e sua irmã Ina se revezavam tocando a harmônica enquanto a mãe cantava hinos religiosos. A Sra. Haszard se levantou e se inclinou para olhar para a parte inferior da porta, quando o teto fez um barulho. 

O professor Charles, Harris Lundius e J.C, Blythe olhavam pela janela. Agora era como ver a um grande lençol de fogo.
Havia uma grande nuvem negra pairando sobre Tarawera, com raios e bolas de fogo.

Prof. Charles disse – “É uma visão incrível, lá fora!” e foi para a varanda. 

sábado, 7 de março de 2015

Te Wairoa - cap 6




Capítulo Seis

“Que diabos foi aquilo que aconteceu no lago, Kelleger?” – o deputado questionou ao padre.

“Os nativos estão dizendo que se trata de uma canoa-fantasma, um sinal de agouro!” – respondeu o clérigo.

“Ora, me admira você, um padre católico, vir me falar em crenças nativas sobre maldições, mau agouros e fantasmas!”

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, deputado” – Kelleger citou Shakespeare.

“Era só o que me faltava! Vir de Auckland para assistir truques de nativos e ouvir um padre apregoar maldições maoris!” – esbravejou o politico.

“Um truque nativo?”

“Claro que se trata de algum truque! Soube que há um líder local, um feiticeiro, que anda apregoando coisas contra o turismo e os ocidentais! Trata-se de alguma peça que nos quiseram pregar!”.

“Eu sei o que eu vi, deputado! E não vejo como poderiam criar ilusões naquele ponto do lago! O senhor também viu, e o viu muito bem!”

“Eu sei o que vimos! Vimos nativos usando de truques sob a névoa para espantar a quem julgam como inimigos!”.


Os turistas obtiveram de algumas pessoas, dentre elas Joseph McRae, a confirmação de que nenhuma outra embarcação partira de Te Wairoa naquela manhã.

A Sra. Sise na mesma noite incluiu em uma carta a seu filho em Dunedin o relato sobre a visão da canoa-fantasma.

Pe. Kelleger e Josiah Martin fizeram desenhos da canoa.

***

“Canoa-fantasma – é do que estão falando no povoado!” – Mr. Bainbridge comentava com McRae, dono do Hotel Rotomahana – “Eu estive um dia antes naquele lago!” – lastimou-se o jornalista – “Adoraria ter estado entre os tripulantes que avistaram a canoa, e tê-la visto com meus próprios olhos! Isto me parece uma história fantástica, os londrinos certamente ficarão muito curiosos sobre algo assim!”.

McRae ficou preocupado com a repercussão negativa, que tal assunto poderia trazer para o turismo local.

“Ora, Mr. Bainbridge! Tais coisas não existem! Como lhe disse, há alguns dias, não existe criatura mais supersticiosa no mundo do que um maori! Eles teem todas essas lendas e são muito impressionáveis! De fato – houve um comportamento, ou fenômeno diferente nas águas antes de partirem e... Bem, isso mexeu com o imaginário deles! O que provavelmente ocorreu não foi nada mais do que ilusões que criaram ao ver pequenas ondas sob a névoa do lago! Pense bem se não seria, para alguém tão supersticioso quanto um nativo, confundir uma pequena onda, a distância de um quilômetro, entre névoas, com um barco!” – e prosseguia o dono do hotel – “Li alguns de seus artigos, admiro seu trabalho jornalístico e o senhor, apesar de bastante jovem, é um profissional muito credenciado, Mister! Mas ouça o conselho de alguém, mesmo que não seja companheiro de profissão, mas alguém mais velho e com experiência – se me permite! Tal tipo de notícia soa sensacionalista ao público mais maduro e... Logo acaba caindo em descrença! Além do que... somos cristãos e sabemos que os espíritos não podem voltar da mansão dos mortos, muito menos em canoas!”.

O jornalista ouviu o empresário, e deixou-o pensar que o havia convencido.

O jovem inglês percebeu que no fundo a preocupação de McRae era que a notícia de que uma canoa-fantasma lendária fora vista poderia ser ruim para os seus negócios! Sim, os maoris poderiam ser “as criaturas mais supersticiosas do mundo”, como dizia o dono do Hotel, no entanto, um misto de turistas, não influenciáveis pelas crenças nativas afirmava ter visto a tal canoa – incluindo até mesmo um sacerdote cristão! E... Ora, não dá pra confundir uma onda com roupas de linhos, penas, remos... Fossem apenas maoris naquele barco!

Edwin respondeu a McRae com uma citação bíblica, que fez o dono do hotel acreditar que o convencera– “Assim o homem se deita e não se levanta; até quando os céus já não existirem, os homens não acordarão e não serão despertados do seu sono. – livro de Jó, capítulo catorze”.


***

Mais tarde, no mesmo dia do avistamento da canoa-fantasma, alguns maoris de Te Wairoa, dentre eles a guia Sophia, foram ao whare (casa) do Tohunga Tuhoto Ariki.

Ariki surgiu altivo e majestoso com seu manto cerimonial de penas quívi.

“Vocês foram desdenhosos com meus avisos e advertências! Trataram-me com grosserias! Voltaram as costas aos nossos ancestrais! Tenho assistido à ruína da tribo Turourangi! Vocês insistiram em beber do álcool dos brancos, em dançar as danças deles e a se corromperem com o dinheiro deles! Transformaram nossa terra em lugar de férias para turistas! Exploram-na por dinheiro, sem pagar o devido respeito aos seus antepassados! Sim, os Turourangi caminharam, apesar de todas as minhas advertências, a passos apressados, para a desmoralização e perdição! Nossos jovens se tornaram debochados e bêbados! Eu incessantemente avisei a vocês! Agora Waka-Wairua, a canoa fantasma veio! É um aviso de Waka-Wairua! – ESTA TERRA SERÁ ARRASADA!”.